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A crise da identidade em O Homem Duplo

Luiz Zanin Oricchio

03 Fevereiro 2007 | 09h56

O Homem Duplo, de Richard Linklater, seria um filme banal não fosse a técnica empregada. A história, tirada de um romance de Philip K. Dick, é a de um policial (Keanu Reeves) que investiga o tráfico de uma droga devastadora mas se transforma, ele mesmo, em uma vítima. A novidade é tudo ser filmado de maneira convencional, mas tendo depois as imagens tratadas pela computação gráfica e técnicas de animação. O que se tem então é uma espécie de cartum animado, decalcado no corpo e no rosto dos atores.

Linklater já havia usado o mesmo procedimento no pseudo-intelectual Waking Life, que chegou a concorrer no Festival de Veneza sem maiores resultados. Enfim, é um procedimento original, que possibilita todo um tratamento de cores e movimentos pouco convencionais.

A idéia de Linklater, tirada de Dick, passa menos por uma investigação policial do que pela questão da identidade. O romance foi escrito em 1977 e se trata de uma ficção científica que põe em questão justamente a noção de identidade, algo problemático na contemporaneidade. Quem somos? Habitados e perpassados por redes de informação, manipulados pela publicidade que se torna onipresente, onde estará um hipotético espaço de liberdade onde seja possível, de fato, dizer que o meu ‘eu’ é real e não uma uma mera ficção.

Essa dissolução do eu é uma questão filosófica moderna e põe em dúvida não apenas a autonomia dos gestos cotidianos de cada um de nós como a própria noção de autoria, conforme observou Michel Foucault em diversos escritos, incluindo As Palavras e as Coisas, uma de suas obras mais importantes, quando diz que o homem talvez não passe de uma pegada sobre a areia, em via de desaparição ou durável até a primeira maré.

Esse pequeno interlúdio filosófico serve apenas para mostrar que as questões colocadas por Dick – e resumidas dramaticamente por ele em uma hipotética droga alucinógena – são prementes na cultura ocidental há pelo menos uns 40 anos. Data do início da nossa pobre modernidade, quando a noção muito fácil de identidade começou a se mostrar frágil, quebradiça e sobretudo muito problemática.

Nesse sentido, Dick, e agora Linklater, procuram tematizar essas inquietações numa história de tipo policial, que sempre se presta bem a esse tipo de indagação. Isso porque o policial, ou o detetive, são aqueles que saem em busca de alguma ‘verdade’ escondida. No caso dos policiais clássicos, essa verdade acaba por aparecer. Nos melhores ‘noirs’, ela se mostra ambígua. E num noir moderno, fora de época, como é o caso de Chinatown (1974), de Roman Polanski, essa ‘verdade’, além de trágica, pode mesmo não existir.

Em O Homem Duplo, assim como em Matrix, tudo é ainda mais diáfano. No filme dos irmãos Wachowski não existe um ponto exterior do qual se possa observar, e portanto toda a percepção do processo estará comprometida. Em O Homem Duplo há isso, mas passando pela dissolução da identidade, um visão do mundo real que se poderia chamar de paranóica. O mundo de Bob Arctor, que é uma persona possível de Keanu Reeves, é o mundo da droga e também do terrorismo.

Não parece absurdo que a incorporação da guerra dos Estados Unidos contra o terror tenha sido comentada por este filme, ou que pelo menos Linklater tenha tentado fazê-lo. Como se sabe, o terrorismo abole a guerra convencional, e o inimigo já não é mais identificável. Ele pode estar entre nós. E é isso que normalmente ocorre. Ele anda conosco nas ruas, e usa nossas armas contra nós. Afinal, convém lembrar, nos atentados de 11 de setembro as armas de guerra foram aviões da frota civil dos Estados Unidos.

É pena que todas essas referências interessantes sejam relativamente desperdiçadas numa trama cheia de lugares-comuns. Como se a novidade radical apresentada pelo filme tivesse de ser temperada com a expectativa de mesmice embutida em toda produção comercial. Assim, um bom ponto de partida e algumas intuições do diretor se perdem nesse pudim rotineiro.

Pensando bem, O Homem Duplo é um filme banal, mesmo com sua técnica inusitada.

(SERVIÇO)
O Homem Duplo (A Scanner Darkly, EUA, 100 min) – Animação. Dir. Richard Linklater.16 anos. Cotação: Regular