A coragem moral de Hannah Arendt
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A coragem moral de Hannah Arendt

Luiz Zanin Oricchio

05 Julho 2013 | 13h20

Existe certa confusão entre a importância do personagem e o filme que o retrata. Às vezes, o personagem é tão fascinante que a obra esconde seus defeitos. Não é o caso deste Hannah Arendt, da cineasta alemão Margareth Von Trotta.

As limitações do longa existem e estão bem à vista – mas nem são tão graves assim. Existe uma tendência ao academicismo, isto é, ao trabalho certinho demais, quadrado mesmo, que, muitas vezes, trava a empolgação maior que poderíamos ter. Mas o academicismo, se pecado é, não deixa de ser venial, pelo menos neste caso. Se às vezes inibe a emoção, o longa de Von Trotta não deixa de ser extremamente informativo sobre o percurso da biografada e intelectualmente estimulante.

Foca sobre um trecho específico desse percurso, o trabalho que Arendt faz para a revista The New Yorker, cobrindo o julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém. Por outro lado, fãs da veracidade histórica têm se queixado de que outros aspectos da biografia de Arendt, igualmente importantes e polêmicos, são deixados de lado. Casos de sua amizade próxima com a escritora Mary McCarthy (Janet McTeer) e seu envolvimento, ainda mais próximo, com o filósofo Martin Heidegger (Klaus Pohl).

Existe razão e certo fanatismo nessa cobrança por completude. Explicável por um lado, quando se trata da relação Arendt-Heidegger. Por um motivo simples. Hannah foi aluna e depois se tornou amante de Martin Heidegger, cujas simpatias pelos nazistas não eram segredo para ninguém. Foi reitor da Universidade de Freiburg sob Hitler e, ao que se sabe, nunca rasgou sua carteirinha do Partido Nacional Socialista. A relação entre a judia de esquerda e o homem ligado ao nazismo torna-se, portanto, um gossip fenomenal da intelligentisia do século 20 que, sem dúvida, mereceria um épico cinematográfico inteiro. Mesmo porque Heidegger, apesar de suas péssimas opções ideológicas, foi um dos mais importantes filósofos do século passado, autor de clássicos como Ser e Tempo.

Mas não foi esse o filme que a diretora Von Trotta quis fazer. Preferiu retratar a escritora que, emigrada nos Estados Unidos, tem dificuldade para desenvolver sua carreira. Cai em suas mãos um assunto quentíssimo e ela oferece seus serviços à New Yorker. A pauta: cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém. O processo deu-se em 1961 e as matérias saíram na New Yorker nos meses de fevereiro e março de 1963. Eichmann foi declarado culpado e executado em maio de 1962. Portanto já estava morto quando as reportagens de Arendt foram publicadas.

Reportagens, em termos. Porque Arendt, filósofa e discípula de Heidegger, não se limita naturalmente ao relato isento dos fatos como prega o manual do jornalismo. Seu texto é um misto de informação e reflexão, tentando captar o sentido daquilo que via, ouvia e lia. Em 1963, os textos originais da New York, revistos e aumentados, foram publicados em livro. Eichmann em Jerusalém – um Relato sobre a Banalidade do Mal (Cia das Letras, 1999, tradução de José Rubens Siqueira) talvez seja um dos textos mais importantes da segunda metade do século 20, em boa parte consagrada à digestão dos efeitos da 2ª Guerra Mundial e da barbárie alemã contra os judeus.

O filme flagra essa saga intelectual de Hannah Arendt, primeiro acompanhando o julgamento em Jerusalém – e a inclusão de cenas documentais do processo é um dos achados felizes de Margareth Von Trotta. Depois, tentando acomodar seu tempo de reflexão à urgência do jornalismo. Mesmo uma publicação tolerante como a New York, com espaço e prazos generosos, tem lá suas limitações. Por sua vez, Arendt, como filósofa, sabe que as ideias exigem seu tempo de maturação. Ninguém pensa direito a toque de caixa. De modo que foi ela a impor o ritmo desejado à publicação. Como a direção da New Yorker acompanhava de perto seu trabalho, tinha outros motivos de preocupação. Sabia da bomba que estava sendo gestada na máquina de escrever da filósofa.

Interpretando os autos do processo, Hannah tenta descobrir de que material era feita a personalidade desse homem de confiança de Himmler e um dos grandes responsáveis pelo genocídio. Ao contrário do pensamento romântico, que associa atrocidades a uma suposta personalidade diabólica, Arendt descobre em Eichmann apenas um pobre coitado. Um burocrata, cumpridor de ordens que, segundo ele mesmo, jamais matou um judeu com suas próprias mãos. Não mesmo. “Apenas” fazia a burocracia dos campos de extermínio funcionar de maneira impecável. Anulando-se moralmente, Eichmann torna-se um executivo da morte, assim sobe na hierarquia e goza seus privilégios. Um patife assassino, sem dúvida. Mas alguém que pertence à categoria humana, não um monstro.

À essa interpretação, Arendt deu o nome de “banalidade do mal”, subtítulo de seu livro e expressão que se tornou corrente, embora em geral mal compreendida. Enfrentou a onda de ira retratada por Von Trotta. O mínimo de que acusavam era de ser simpatizante do nazismo, logo ela, uma judia de esquerda. Mas é claro que a ligação com Heidegger foi lembrada para reforçar a ideia.

No fundo, a Hannah Arendt, de Margareth Von Trotta, é uma celebração da coragem intelectual. Da liberdade do pensamento que, como se sabe, quando começa a ser praticada nunca se sabe aonde pode levar. Não ocorria aos seus detratores de que a ideia de que o mal seria privativo dos monstros era nada mais do que apaziguante. Inquietante é pensar o mal como uma possibilidade humana.