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A Copa e nós

Luiz Zanin Oricchio

02 de junho de 2009 | 09h20

Achei que, de certa forma, a 4ª rodada do Campeonato Brasileiro ficou meio em segundo plano por causa do anúncio das 12 cidades que vão abrigar a Copa do Mundo em 2014. Dizem os especialistas que não houve surpresa. Existia uma ou outra dúvida, como entre Campo Grande e Cuiabá, mas, no todo, não houve novidades. Elegeram-se as cidades esperadas. E agora começa o grande debate. Aliás, começa não, porque ele já foi iniciado mesmo antes de o Brasil ser anunciado como sede da 20ª Copa. Desde então, não se deixou de discutir, das redações aos botequins e casas de tolerância, a capacidade brasileira de organizar um torneio desse porte.

Francamente, conhecendo meu país, esse tipo de debate não me surpreende mais que a escolha das sedes. Temos uma tendência imbatível de duvidar de nós mesmos. Lembro que, na época da guerra fria, lá pelos idos dos anos 60, quando se falava na iminência de uma revolução socialista no Brasil, aparecia sempre algum gaiato para dizer: “Comunismo no Brasil? Não dá certo. Em seis meses estaria completamente desmoralizado.” Pobres da CIA, dos militares inquietos e dos setores civis que apoiaram o golpe de 64. Não precisavam se dar ao trabalho de conspirar. A proverbial aversão a qualquer tipo de organização teria liquidado em dois tempos com qualquer veleidade revolucionária entre nós.

Enfim, é mais ou menos o que se diz da Copa. Se não conseguimos organizar a contento nem o nosso modesto calendário doméstico, que condições teremos de cumprir à risca as exigências da Fifa? Nenhuma, segundo os críticos. Além do mais, se somarmos a essa propensão anárquica a atração, ou pelo menos a grande tolerância para com a corrupção, o que nos resta? Com tantos interesses em jogo, tanta grana a ser movimentada, quem nos garante que não haverá desvio de recursos, em especial de verba pública, dinheiro, em tese, que pertence a todos nós? Além do mais, seria preciso lembrar que o Estatuto do Torcedor não se cumpre, que os estádios não apresentam qualquer condição de uso civilizado, que há problemas de hospedagem, transporte, saúde, etc., etc. e tal.

“Tudo somado, deverias precipitar-te de vez nas águas”, como sugere Drummond no poema Consolo na Praia. Mas, como não queremos seguir o conselho do poeta, vamos acabar fazendo uma ótima Copa do Mundo em 2014, desconfio.

A maioria de nós não estava aqui para saber por experiência própria como era o clima da outra Copa que organizamos, a de 1950. Mas também não estávamos presentes no incêndio de Roma e no entanto sabemos que ele aconteceu, como dizia João Saldanha quando lhe perguntavam se havia visto pessoalmente determinada coisa. Não vi, mas existem livros, relatos, recortes de jornal, tudo para substituir a experiência direta. Por esses meios, podemos deduzir que o clima predominante na época era de ufanismo. Construiu-se o maior estádio do mundo e garantimos que a humanidade iria curvar-se ao Brasil, inclinar-se diante do nosso futebol sem igual. Deu no que deu. O Brasil perdeu a Copa, entre outros motivos porque a considerou ganha por antecipação. Restou o trauma do jogo vencido pelo Uruguai. Mas o Maracanã também ficou. E lá estará, em 2014, para sediar nova partida final de Copa do Mundo.

De qualquer forma, entre o ufanismo acrítico e o pessimismo sistemático, havemos de encontrar algum meio-termo. E fazer uma Copa para ninguém botar defeito. Ninguém, vírgula. Porque nós mesmos sempre haveremos de encontrar mais defeitos que qualidades em tudo que fizermos.

(Coluna Boleiros, 2/6/09)

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