As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A conquista do Estado

Luiz Zanin Oricchio

11 de maio de 2016 | 17h34

 

Se não me engano, o estudo referencial do golpe de 1964 é A Conquista do Estado, de René Dreyfus. O livro, um catatau de 900 páginas, de extensa e impecável documentação, mostra como foi montado o aparato ideológico de desestabilização do governo João Goulart através de institutos como o Ipês e o Ibad, financiados pelo grande capital, brasileiro e estrangeiro, interessado em livrar-se de um presidente de ideias tidas como esquerdizantes.

De qualquer forma, os conspiradores, por mais que insuflassem a opinião pública contra os “perigosos comunistas”, precisavam da ingerência militar na tomada do Estado. Os tanques nas ruas logo seriam substituídos pelos civis no mando. Era o que se esperava. Não foi o que aconteceu.

Já não é preciso ser assim. Como acabamos de ver, já é possível tirar um governo eleito sem necessidade de intervenção direta das Forças Armadas. Bastou um convênio bem amarrado entre congresso, judiciário, mídia, setores industriais e movimentos de rua financiados não se sabe ainda por quem, para apear do cargo uma presidente eleita com mais de 54 milhões de votos. Temos agora o instituto do golpe”branco”, à imagem dos de Honduras e Paraguai, que nos precederam nessa matéria.

Ou seja, o grande capital, as oligarquias de sempre, as velhas lideranças, que articulam toda a jogada, encontraram uma maneira “civilizada” de relativizar resultados eleitorais. Se quem é eleito é da nossa turma, tudo bem. Se, por um desses infortúnios da política, elege-se alguém que ameace nossos lucros, nosso poder, nossa influência, bom, já existe um meio de livrar-se dele sem que a comunidade internacional se sinta muito chocada.

Mas, apesar de tudo, as manobras no Brasil parecem tão evidentes que nem mesmo a tal da comunidade internacional, pouco interessada no país, se convenceu de todo. Se a palavra “golpe” foi evitada em muitos editoriais, a maior parte dos veículos de credibilidade ao menos registrou a estranheza do procedimento, conduzido por um réu confesso (em seguida devidamente defenestrado) e votado por muitos deputados acusados de corrupção. A pífia alegação das “pedaladas” também foi citada. Notório é que se trata de mero artifício juridico para tirar do caminho uma presidente agora impopular e indesejada do “mercado”.

Toda essa armação está a exigir um estudo do porte do de Dreyfus para ser mostrada à luz do dia. Não será de hoje para amanhã, pois é tudo intrincado e edificado nas sombras. Um dia saberemos dos detalhes da armação. Mas o conteúdo bruto é tão tosco que se revela por si mesmo. Basta ter olhos para ver.

O golpe é autoevidente.

Mais conteúdo sobre:

golpe de 1964Golpe de 2016Ibadipês