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A compaixão humana

Luiz Zanin Oricchio

07 de setembro de 2007 | 13h54

VENEZA – Não sei se 12, de Nikita Mikhalkov, é o melhor filme de Veneza. Sei que foi o que mais me emocionou, o que é uma impressão, uma reação subjetiva. Mas, enfim, como tenho apenas uma subjetividade, é dela que falo, apesar de às vezes pensar, como Rimbaud, que Je est un autre (Eu é um outro), o que quer dizer também que ninguém vive exclusivamente preso em si. Mas esta também é outra história.

12 é recriação, na Rússia, de Doze Homens e uma Sentença, de Sidney Lumet. O que se tem é a reunião de um júri de 12 pessoas para decidir a sorte de um garoto checheno, acusado de haver matado o padrasto para roubar-lhe a aposentadoria. Tudo parece fácil e todo mundo já está se preparando para ir embora quando um único jurado vota contra. E, como argumento, conta a sua história pessoal.

Era físico, havia inventado um dispositivo qualquer, não lhe deram atenção, ele começou a beber, decaiu, perdeu emprego, etc. Um dia estava bêbado, no metrô, com aparência repulsiva e ameaçadora, e um menino falou para a mãe que tinha medo. A mãe disse ao garoto: “Não tenha medo, esse homem está apenas muito triste”. O jurado diz que sua vida foi salva apenas porque uma pessoa, entre todas, pudera olhar para ele de maneira menos superficial e tivera compaixão.

O filme vai por aí, caminha entre a necessidade de julgar e condenar o próximo de maneira muito rápida, e o impulso (cada vez mais raro) para termos piedade, compaixão, sentimentos positivos em relação aos outros – tudo isso que parece hoje em dia até meio piegas e babaca. Seja. Estamos sempre prontos a resolver tudo rápido e na porrada. E, no fundo, não temos a menor idéia de quem seja esse outro de quem nos afastamos, a quem tememos e de quem desejamos nos livrar.

O filme é sobre isso. Simples, brilhante, emocionante. Um filme sobre o tempo, que não concedemos aos outros e nem a nós mesmos.

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