A Cinemateca em perigo
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A Cinemateca em perigo

Luiz Zanin Oricchio

26 de julho de 2013 | 23h46

A trajetória da Cinemateca Brasileira confunde-se com a história da cultura cinematográfica brasileira. Surge em 1940 como Clube de Cinema de São Paulo e tem como fundadores jovens estudantes da USP, que se tornariam marcos da cultura do País: Paulo Emilio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e Antonio Candido Melo e Souza.

Durante algum tempo, a Cinemateca funcionou como anexo do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), formando a Filmoteca do Museu. Filiada à Fiaf (Fédération Internationale des Archives du Film), a instituição lutava com dificuldades para se manter. Em 1984 foi incorporada ao Ministério da Cultura. A atual sede, no antigo matadouro da cidade, foi cedida pela Prefeitura de São Paulo em 1992, e a Cinemateca começou a mudar-se para lá durante a gestão de Thomaz Farkas.

Quem a visitou naquela data, como foi o caso da reportagem do Estado, dificilmente poderia acreditar que lá se estabeleceria uma Cinemateca digna do nome. Em torno das poucas construções, via-se algo que se assemelhava mais a um terreno baldio, com obras inacabadas, mato alto e pouca gente trabalhando. Só quem conservava o entusiasmo era Farkas, um eterno idealista a insistir que a transferência da instituição para aquele terreno era a realização de um sonho.

E, de fato, 20 anos depois, quem voltasse ao Largo Senador Raul Cardoso, encontraria panorama bem diferente. Duas belas salas em funcionamento, um ativo laboratório de restauração, câmaras de conservação de películas, uma boa programação. Enfim, todo o complexo de atividades que faz de uma cinemateca instituição tão dispendiosa como indispensável ao funcionamento da cultura cinematográfica de um país.

Talvez seja interessante lembrar o caso da Cinemateca Francesa, que, em muitos aspectos, serve de modelo para a Brasileira. A Cinemathèque Française é instituição tão valorizada pelos franceses que a substituição de um diretor provocou crise política imensa. Claro, não era um diretor qualquer, mas o mitológico Henri Langlois, demitido pelo então ministro da Cultura, André Malraux. Revoltando-se contra a intervenção do Estado no que considerava atribuições específicas da Cinemateca, Langlois escreveu artigo virulento, Nota sobre a Situação da Cinemateca,  entendido pelo governo como desafio. Nele, procurava defender a autonomia da instituição contra o que entendia como indevida interferência estatal. No contra-ataque, o ministério diz ter detectado uma série de irregularidades de gestão, o que justificaria a intervenção. O combate teve muitas escaramuças e, como não se chegou a um acordo conciliatório, Langlois foi afastado em 9 de fevereiro de 1968.

A Cinemateca era símbolo da cinefilia parisiense, e Langlois o seu profeta. Assim, estourou uma crise, na verdade uma guerra, travada de um lado pelo Estado e, de outro, pela imprensa (Cahiers du Cinéma à frente) e cineastas franceses. Líderes do movimento, Truffaut, Godard, Chabrol e amigos conseguiram o apoio internacional de gente como Fritz Lang, Charles Chaplin, Jerry Lewis e muitos outros – todos a favor de Langlois. Por fim, o governo cedeu e Langlois foi reintegrado. Era a vitória pela autonomia.

Era outro tempo, extensamente politizado e cinefílico. Não sei se hoje alguém se comoveria com a troca do diretor da Cinemateca Francesa, agora comodamente instalada em Bercy (no tempo de Langlois era no Musée de l’Homme no Palais de Chaillot, junto à Torre Eiffel). Em todo caso, no Brasil pouca gente parece incomodada com a paralisia das atividades da nossa Cinemateca. Os cineastas, ocupados com o mercado e com editais, não se manifestam. Os intelectuais e críticos tampouco. Tudo se passa em silêncio, como se não fosse conosco.

A Cinemateca Brasileira nasce do mesmo impulso cinefílico que deu origem à Cinemateca Francesa. Em sua origem está um modesto cineclube. Mas os novos desafios e as imperiosas necessidades culturais fizeram-na crescer e propor-se metas muito amplas. No prefácio de A Cinemateca Brasileira – das Luzes aos Anos de Chumbo (Unesp, 2010), o professor Ismail Xavier fala das atividades de uma cinemateca moderna, listadas pelo autor do livro, Fausto Correa Jr. “Uma cinemateca moderna envolve a prospecção de filmes, a preservação de acervos, a difusão cultural e a reunião de uma documentação em diferentes suportes materiais que é parte constitutiva de uma instituição capaz de modular a relação do presente com o passado e cumprir seu papel formador, de público e de novas gerações de cineastas.”

Essa frase resume a importância vital de uma cinemateca. Mas também podemos nos perguntar se, dividida por brigas políticas internas, a Cinemateca Brasileira tem de fato cumprido com tão generoso ideário; ou voltou-se para si mesma e afastou-se do seu público potencial? Este momento em que poucos a defendem, seria, talvez, propício para um autoexame sem complacência. Quanto ao MinC, espera-se que tente conciliar a exigência de rigorosa  lisura orçamentária com a manutenção em funcionamento de uma das principais instituições culturais do País.

Conservá-la em estado de hibernação por tempo demais pode causar danos cerebrais irreversíveis.

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