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A Cidade É uma Só?

Luiz Zanin Oricchio

19 de julho de 2013 | 10h24

É importante o espectador prestar atenção à interrogação presente no título: A Cidade É uma Só. Não fosse o sinal, o nome do filme poderia soar como evidente sarcasmo. Pois, como sabe muito bem seu diretor, Adirley Queirós, a cidade em pauta, Brasília, pode ser tudo no mundo, menos “uma só”.

Nascida de um projeto igualitário saído da prancheta de Lúcio Costa, Brasília logo criou as chamadas cidades-satélites para abrigar os que a haviam construído, mas não tinham condições de morar no Plano Piloto. O Plano, como se diz familiarmente, o famoso projeto urbanístico em forma de avião, que abriga o poder, a burocracia e uma parte da população. A outra foi morar longe nas satélites. Esse fim de sonho já havia sido descrito em outro documentário, o clássico Conterrâneos Velhos de Guerra de Vladimir Carvalho.

O próprio Adirley é morador da Ceilândia, que tira seu nome de uma sigla – CEI, Campanha de Erradicação das Invasões. “Invasão” é como chamavam as favelas, termo igualmente pejorativo, e que designa as moradias populares.

Através do documentário, nada convencional, diga-se, narra-se a história de uma desocupação de terreno, que começou em 1969 (Brasília nasce em 1960), e culmina com a mudança, forçada, em 1971. A história é mais ou menos a mesma de tantas outras desocupações que acontecem nas metrópoles brasileiras. Com a especulação imobiliária nas cidades, os terrenos vão rareando e se tornando caros, além de muito cobiçados. Logo os habitantes, em geral gente de baixa renda, são obrigados a deixá-los, sob promessa de que serão transferidos para um lugar melhor. Essa narrativa é praticamente invariável.

Esse processo de desapropriação é narrado de forma pouco didática pelo diretor, ele mesmo morador na Ceilândia há 30 anos. Na verdade, o título ironiza mesmo o jingle que, na época, tentava vender a ideia de unidade social quando o que havia era exclusão. O que se vê na tela é a prospecção desse jingle ideológico, através de personagens que viveram o processo de expulsão.

Entram, também, personagens ficcionais, que tentam ligar o passado e o presente Um deles, se diz candidato a uma vaga de deputado distrital, sob uma sigla fictícia, e faz campanha num automóvel caindo aos pedaços pelas ruas de terra. Nesse ponto, o filme adota uma pegada à la cinema marginal, com proposta paródica e agressivamente retórica. A ideia é incorporar a precariedade como elemento narrativo e nunca disfarçar a carência dos meios.

Exasperante e repetitivo às vezes, passa no entanto seu recado. Através de uma estética da exclusão, seu diretor parece se pergntar afinal onde mora – se na Brasília oficial, ou fora dela, em sua periferia. Se esta é uma situação bem especifica do Distrito Federal, poderia também ser aplicada a boa parte da população pobre brasileira e a posição que ocupa nas cidades onde vive e trabalha.

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