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A “bolha” do cinema e o mundo

Luiz Zanin Oricchio

24 de abril de 2007 | 18h35

Quando estamos num festival de cinema parece que habitamos uma bolha artificial, protegida do mundo. Uma ilha, cercada de cinema por todos os lados. Filmes à noite, debates à tarde, cursos, palestras. No café da manhã e nas refeições fala-se sobre cinema. Como se diz: respira-se cinema, o que é bom. Nem assim consigo me afastar do mundo por muito tempo. Por exemplo, acompanho com interesse a disputa da eleição francesa e vejo repetir-se a oposição direita x esquerda, que muitos entendem superada (às vezes mais por wishfull thinking que por senso de realidade). Quero acompanhar como será a disputa pelo votos do centrista Bayrou, pelo apoio da extrema-direita de Le Pen e da esquerda, com seus trotskistas e seu patrimônio de 4% do eleitorado. Para mim, a França é uma espécie de segunda pátria, porque lá vivi. E torço para que não ceda a pressões para ingressar no “pensamento único”, até há pouco dominante, mas já declinando. Na França trabalha-se 35 horas por semana. O país não parece ir de todo mal.

Vi também, com surpresa, a morte de Boris Ieltsin, e li o bonito artigo que o nosso correspondente Gilles Lapouge dedicou ao assunto. Qual será o legado de Ieltsin? O homem que entregou o país à máfia russa, naquela série de privatizações selvagens e suspeitas? Ou o que defendeu a democracia toda nova, ameaçada por um putsh, no golpe que acabou com Gorbachev? A resposta vai depender da ideologia do freguês, se ele a tiver. Estive na Rússia na época da eleição de Ieltsin e fiz matérias para a seção Internacional do Estado. Ouvi muita gente na ocasião, de intelectuais a gente do povo.

Pude sentir então o grande ressentimento do país em relação a Gorbachev, o que para mim foi uma surpresa. Gorbachev quis reformar o comunismo e o enterrou. No fundo, muitos russos o responsabilizavam pelo fato de a URSS ter acabado. O país, então, deixara de ser uma superpotência e vivia próximo do caos. Elegeu Ieltsin e deu a Gorby uma votação humilhante. Às vezes me pergunto como se sente o hoje povo russo sob Putin, continuador de Ieltsin.