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A bola e a bala

Luiz Zanin Oricchio

27 de março de 2012 | 08h45

Amigos, não sabem do meu constrangimento ao dar esse título a um espaço dedicado à arte do futebol, à beleza do jogo da bola. É chato, No entanto, de vez em quando o futebol nos traz esse tipo de coisa, a morte estúpida de um torcedor numa dessas brigas recorrentes entre rivais.

Não sei se existe alguma solução imediata para essa barbárie. Se houver, entendo que passe por uma visão realista das coisas e não por mistificações.

Por exemplo, tendemos a dizer que a violência no futebol é um fenômeno contemporâneo e que antes as torcidas conviviam harmoniosamente. Não é verdade. Nunca foi assim e quem frequenta estádios há mais tempo sabe disso. Um certo grau de hostilidade entre as torcidas sempre existiu. Há registros de brigas e violências que remontam aos anos 1920 ou 1930.

É bem possível, porém, que tudo tenha piorado à medida que o próprio mundo social se exacerbou. O nosso tempo pode ser saudado por vários progressos indiscutíveis, mas dificilmente o será por sua tolerância. O impulso tribal, presente em diversas intolerâncias mundo afora está presente também no futebol, que não existe fora das sociedades humanas e suas imperfeições.

É muito provável, também, que agrupar torcedores em entidades rivais, as tais torcidas “organizadas”, só contribua para turbinar esse sentimento tribal, com todas as suas consequências.

A violência no futebol é um fenômeno universal e não apenas brasileiro. Cabe lembrar que a “civilizadíssima” Europa, também sofreu bastante com ela. Pelo menos até colocar em prática uma série de medidas draconianas, que acabaram com a ação dos hooligans. Hoje, vemos pela TV jogos sendo disputados em estádios sem alambrados. Para invadir um campo o fanático não precisa nem pular uma cerca. Mas sabe que as consequências serão pesadas.
Outro aspecto em que evitamos pensar diz respeito à natureza do futebol e dos jogos em geral. Costumamos considerá-los sob os aspectos favoráveis como união dos povos, escolas de vida, benefícios à saúde, fontes de beleza, emoção, etc.

Tudo isso é verdade. Mas não podemos esconder a sua outra natureza, a de serem uma espécie de sublimação do combate. A cada vez que uma equipe enfrenta outra, para valer, está travando nada menos que uma guerra simbólica, na qual o que importa é vencer – dentro das regras, é claro. Muitas vezes, no furor do combate, essa guerra extrapola seu caráter simbólico e descamba para o real. Dentro e fora do campo. É quando jogadores trocam botinadas, um craque como Zidane dá uma cabeçada no peito de Matterazzi numa final de Copa do Mundo, e é quando uma torcida entra em combate físico com a sua rival.

Afinal, o futebol é um jogo, que desperta tanto o nosso impulso pela beleza quanto nossos instintos menos nobres. É preciso que o jogo se limite ao campo do simbólico, no qual não produz danos maiores do que a frustração com uma derrota e a exposição à chacota adversária. Como fazê-lo? Não existem fórmulas, mas entendo que uma legislação dura com delinquentes tenha de se associar a estratégias para desenvolver a civilidade e espírito desportivo das torcidas.

* (Coluna Boleiros)

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