A Bela Moleira
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A Bela Moleira

Luiz Zanin Oricchio

26 de março de 2013 | 12h22

Em A Bela Moleira, de Mario Camerini (1895-1981), temos uma farsa moral renascentista envolvendo política e sexo. Reunindo atores como Marcello Mastroianni, Vittorio De Sica e Sophia Loren, Camerini, considerado o pai da comédia italiana dos anos 1930, se exercita num gênero cômico que é também um filme de época, ambientado em Nápoles do século 17, sob ocupação espanhola.

Sophia é a bela moleira da história. Casada com Luca (Mastroianni), ela é cobiçada pelo governador Teófilo (De Sica), que deseja seus favores e, desse modo, faz vistas grossas às pequenas contravenções de Luca. Uma delas é burlar a quantidade de trigo que transporta do seu moinho para os clientes. O ambiente é de farsa. O governo é apresentado como tão autoritário e com tamanha voracidade fiscal que cobra impostos até sobre a chuva (mesmo que não caia uma gota d’água) ou sobre os casais, a cada vez que dormem juntos. Luca é o único que não paga, protegido pela beldade com quem partilha o leito.

A comédia tem lá a sua graça, em especial pela atuação do trio principal. Loren, com sua beleza estonteante e comicidade natural, despachada e napolitana até a alma; Mastroianni, com aquele ar entre o esperto e o parvo que sabia imprimir tão bem em comédias. E De Sica, com sua fronte nobre, que, com certo espasmo de exagero, expressa de maneira perfeita a corrupção de costumes dos ricos e dos poderosos.

O filme é significativo pelo lugar que Camerini ocupa no gênero vital da comédia à italiana, tão bem representada por diretores como Mario Monicelli e Dino Risi, entre outros. Camerini os precede. Opera, no tempo do fascismo, num gênero sarcasticamente apelidado de “telefones brancos”. Histórias ambientadas em ambientes burgueses, nos quais o signo de opulência e distinção eram os chiques telefones brancos que ocupavam lugar de destaque na sala de visitas. Camerini, além das comédias, dirige também uma prestigiada adaptação de Os Noivos Promessi Sposi, de Manzoni, livro clássico, que todo estudante italiano lê na escola.

Alguns o consideram precursor do neorrealismo, a escola de cinema que surgiria no pós-guerra. Mas o fato é que o neorrealismo, com sua produção despojada, heróis populares, uso frequente de atores amadores, temática social com viés de esquerda, etc, era o oposto do acomodado cinema praticado por Camerini no tempo de Mussolini. Daí se explica a sua relativa decadência nos filmes realizados por ele após a derrota do Eixo na Segunda Guerra Mundial.

A Bela Moleira é dessa fase posterior. Guarda, no entanto, um certo frescor das comédias ingênuas, bem distantes do gênero agridoce, altamente crítico, já então praticado por Monicelli e colegas. Há, nesse Camerini, um certo arremedo de crítica social, sob forma dos impostos absurdos cobrados pelos espanhóis ao longo da dominação sobre Nápoles. O tema é caro aos italianos, tão avessos a tributos quanto outros povos no mundo.

Mas isso não vai muito adiante. Seu tema maior se concentra nos engodos do amor. Luca fica entre a inocência e a malícia. No fundo, se sente muito cômodo ao usar a mulher como moeda de troca dos favores do poderoso. Desde que não  cheguem às últimas consequências. A bela Sophia também joga o jogo, mas não parece disposta a enganar o marido com tanta facilidade. E Teófilo é o exemplo de como o homem, por poderoso que seja, pode se transformar num idiota completo quando em presença de uma mulher desejável.

O tom, já se vê, é também de uma farsa moral antiga, porém sempre contemporânea, e agradável de se ver.

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