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À beira do abismo

Luiz Zanin Oricchio

02 Março 2007 | 14h34

Candy & Dan – são os protagonistas de um amor terminal e personagens de Candy, o talentoso filme de Neil Armfield. A garota Candy (Abbie Cornish) e seu namorado Dan (Heath Ledger, de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’) são artistas, ou candidatos a isso. Ela a pintora, ele a poeta. Ambos se drogam e bebem. Fazem um par condenado à morte, ou, pelo menos ao risco de vida. Seu reino não é o desta terra.

Enfim, é a velha história do artista maldito que não se enquadra nas convenções e leva vida marginal. No caso da dupla, essa atitude aparece antes mesmo de terem confirmado seus dotes para a arte. Em geral é assim. O artista aprendiz tem certeza do seu talento. Só precisa convencer disso um mundo bitolado. O escritor precisa publicar; o pintor, fazer uma exposição; o músico, gravar; o cineasta, rodar seu filme. Enquanto o mundo não se decide, Candy e Dan vivem na marginalidade. Há um outro ponto, interessante, e que faz parte da psicologia do drogado. O filme percebe que o que está em jogo no mundo da droga é uma certa estabilização do prazer.

Nem tanto o prazer em si mesmo, mas a tentativa (desesperada)de mantê-lo no patamar, sem que haja o declínio. No álcool também é assim e Gilles Deleuze analisou muito bem esse ponto no caso de F. Scott Fitzgerald. A vida roda nesse contínuo e por isso parece circular. O mundo da heroína fecha-se sobre si mesmo. Até que alguém tema pela vida e resolva quebrar o pacto.