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À Beira do Abismo

Luiz Zanin Oricchio

04 de fevereiro de 2012 | 09h17

 

Aos desavisados cabe uma dica: o romance The Big Sleep,hard boiled de Raymond Chandler, foi adaptado para o cinema em 1946 por Howard Hawks e se chamou no Brasil À Beira do Abismo.É genial, um tipo ideal do gênero noir, com Humphrey Bogart e Lauren Bacall, ainda por cima. Não tem nada a a ver com este filme homônimo, que agora chega ao circuito com direção de Asger Leth. Não se trata de refilmagem. Na verdade, a “tradução” é uma gambiarra. O original ,Man on a Ledge, tem a vantagem de descrever a situação principal, a do homem que ameaça jogar-se do parapeito de um prédio.

Quem é ele? Aprendemos que é Nick Cassidy (Sam Worthington), ex-policial condenado por crime de roubo, que escapa da prisão para tentar provar a inocência. O desespero o leva à tentativa de suicídio? É o que procura descobrir a psicóloga policial Lydia Mercer (Elizabeth Banks), enquanto tenta convencer o homem a não pular para o nada. Logo o espectador percebe que nem tudo é como parece, e que Nick está no tal parapeito por outros motivos além do desespero.

O projeto é mesclar duas ideias distintas, nenhuma delas original – a do espetáculo midiático proporcionado por alguém que ameaça se jogar, aliada a uma intrincada trama de roubo de joias em uma caixa de segurança máxima. A primeira parte é a de sempre, com a multidão oscilando entre a compaixão e o desejo de ver a morte de alguém. Tudo isso que se chama sociedade do espetáculo, com direito, é claro, à repórter de mau caráter, emblema da imprensa sensacionalista. Inútil dizer que, nesse ponto, o filme não aprofunda nada. Na outra linha de ação, uma trama intrincada, que lembra as da série Missão Impossível em registro mais modesto. Com direito, a uma beldade um tanto selvagem, Genesis Rodriguez (também com um nome desses…), a cota hispânica a ser preenchida, muitíssimo bem preenchida, aliás. Já a cota black fica por conta de um ex-colega do tira caído em desgraça.

O engraçado é que o filme insinua uma linha dramática potencialmente interessante, que depois joga fora. A psicóloga Lydia é chamada para atender a emergência e acorda em seu apartamento presa de uma ressaca federal. Sabemos depois que ela falhou em outra ação. Seu diálogo com Nick, portanto, poderia ser o de dois perdedores, que no fundo se compreendem por suas limitações. Mas, mal esse caminho é insinuado, em seguida é abandonado, talvez para não forçar a mente do público-alvo.

No começo, a tal ideia dupla levada à tela por Leth parece até funcionar. Mas logo ela começa a soçobrar sob o peso dos clichês. E, quando entrar em ação a trama paralela, que se alterna com a figuração do potencial suicida, o mais amigável dos espectadores descobrirá que o filme não lhe apresenta nada de novo. E nem de particularmente excitante. É apenas um produto entre outros. Entre muitíssimos outros, diga-se, provando que a indústria cinematográfica virou mesmo uma empresa de recicláveis. Indústria que se dá ao luxo até de desperdiçar talentos, como o ator Ed Harris, num pífio papel de vilão.

(Caderno 2)

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