À Beira do Abismo
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À Beira do Abismo

Luiz Zanin Oricchio

02 de dezembro de 2012 | 20h01

Dificilmente se encontra noir tão puro sangue como À Beira do Abismo, de Howard Hawks. Baseado em livro de Raymond Chandler, tem seu detetive, Philip Marlowe, envolvido com um caso enrolado e algumas mulheres fatais. Não bastasse, é estrelado pela dupla emblemática – Humphrey Bogart e Lauren Bacall, charmosos até debaixo d’água. Esse é o filme lançado em edição de luxo pela Versátil. São dois discos. O primeiro contém a versão oficial do filme. O segundo, a versão do diretor e mais A Arte de Matar, remake dirigido por Michael Winner também a partir de The Big Sleep, o romance de Chandler que deu origem ao clássico de Hawks.

A história começa como uma simples investigação, quando se desdobra por situações improváveis, personagens e crimes múltiplos, num quebra-cabeças no limite do insolúvel. Marlowe atende ao chamado de um milionário, o general Sternwood (Charles Waldron) e este lhe dá uma tarefa aparentemente simples. Uma de suas filhas estroinas está sendo chantageada por fotos comprometedoras. Na visita à mansão, Marlowe a conhece: é a ninfeta Carmen (Martha Vickers). Mas é a outra irmã, mais velha, Vivian (Lauren Bacall), que mais impressiona o detetive.

O roteiro de À Beira do Abismo é escrito por William Faulkner, junto com Leigh Brackett e Jules Furthman. Era desses trabalhos que Faulkner detestava. Aliás, um dos capítulos da história cultural norte-americana é a atração que a meca do cinema exercida sobre escritores de todo o país. Iam para lá em busca do que não tinham, dinheiro e prestígio. Muitas vezes, sucumbiam ao trabalho, encharcando-se de álcool e ressentimento. É famosa a piada (baseada em caso real) sobre um escritor decadente. Um interlocutor pergunta o que havia acontecido de mal com sua carreira, e ele responde, sintético: “Hollywood”. A relação escritores x Hollywood é tema central de Barton Fink, dos irmãos Coen, vencedor de Cannes.

O caso é que o roteiro de The Big Sleep não é malfeito. Pelo contrário, ele é benfeito até demais, com bifurcações e atalhos complicados, que parecem conduzir, a cada passo, a um beco sem saída. O brilho maior, porém, está nos diálogos, com fio de navalha, cheios de subentendidos. Diálogos literários, a bem dizer, porém muito fluentes. As falas de Bogart a malandros ou policiais contém sempre um subtexto agressivo. Idem, com as mulheres, porém nesse caso, é uma agressividade que se confunde à alusão sexual, como no caso em que contracena com a livreira interpretada por uma deslumbrante Dorothy Malone. É um filme de texto brilhante, pode-se dizer.

Mas não só, é claro. O principal é a atmosfera. Apesar dos muitos pontos obscuros, não se consegue desgrudar da tela. É magnético, por uma série de motivos, entre eles o extraordinário sentido de timing de Hawks, não por acaso diretor de um western clássico da espera como Quando Começa o Inferno. Há, também, o par Bogart-Bacall, que se casa dois meses após o término das filmagens. No set, Bogart ainda tentava se divorciar da esposa, o que apimentou o affair. Para explorar o fascínio do novo casal sobre o público, a Warner mandou que cenas suplementares com os dois fossem acrescentadas à montagem final. Não destoam. Tudo é tão mágico que nada poderia estragar essa obra-prima do cinema noir.

 

Noir

Como gênero, o noir é facilmente reconhecível, porém de difícil definição. É clássico situar a “idade de ouro” do noir entre os anos 1930 e 1960. Tem sua origem nos filmes de gângsteres dos anos 30, mas, incluem, muitas vezes, a figura do detetive particular – Sam Spade e Philip Marlowe são os tipos ideais desta figura.

O noir é devedor da fotografia em preto e branco do expressionismo alemão e joga com essa estética. São filmes noturnos em sua alma, usam as sombras, os ambientes enfumaçados, os faróis dos carros que cortam o asfalto molhado. São muitas vezes narrados em primeira pessoa (o detetive rememorando determinado caso), protagonizados por homens durões e mulheres fatais. As frases são cortantes e impiedosas. Se há emoção e romance, eles nunca resvalam na pieguice. É uma estética de duros, melancólica. Ninguém choraminga. Fuma-se e bebe-se o tempo todo. Ou seja, o noir tem uma estética e uma ética próprias.

No subtexto, uma sociedade em crise econômica e de valores, na qual o vale-tudo parece ser a nota dominante. Com charme inegável, o noir expõe as entranhas sociais sem grandes pudores, como acontece em O Segredo das Joias (Huston), A Marca da Maldade (Welles), Assassinos (Siodmak). Delimitado no tempo, o noir ressurge, de outra maneira, em autores contemporâneos como Roman Polanski (Chinatown), Lawrence Kasdan (Corpos Ardentes) e Quentin Tarantino (Cães de Aluguel).

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