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A base, o Barça e nós

Luiz Zanin Oricchio

10 de abril de 2012 | 09h02

Junto algumas leituras de ontem para compor minha coluna de hoje. A primeira refere-se à coluna do colega “boleiro” Paulo Calçade, que toma o caso do Corinthians para falar da insuficiência da renovação dos elencos profissionais pelas categorias de base.

Ocupando a mesma página do Caderno de Esportes do Estadão de ontem está a ótima reportagem de Jamil Chade sobre o “futebol absoluto” do Barcelona. A nova forma de jogar, essa que vem desafiando rivais de todo mundo, e que seria uma espécie de evolução do futebol total holandês, cunhado no Ajax e exportado por Johan Cruyjff para o próprio Barcelona. O Barça atual seria a evolução desse futebol total, um patamar novo que é justamente burilado nas categorias de base do clube catalão.

Um texto complementa o outro.

Os garotos, na “cantera” do Barcelona, são educados desde cedo em torno de três princípios fundamentais: controle e posse de bola, qualidade técnica do jogador e um sentimento coletivo de busca da vitória a cada jogo.

Esses princípios são o que são: dogmas, martelados dia após dia nas cabeças dos jovens em formação. Uma verdadeira lavagem cerebral – no bom sentido da expressão. E, pode-se apostar, foi apenas com base nessa teimosia, nessa coerência, que o clube criou seu futebol vistoso e classudo, capaz de condenar à obsolescência o futebol-força e impor sua marca ao nosso presente futebolístico. É o clube da moda, o time a ser batido, mas também o xodó da mídia e o modelo a ser imitado.

Tudo bem, mas o paradigma do Barcelona, que parece tão fácil de seguir, no fundo é inimitável, ou, pelo menos, muito difícil de ser mimetizado.

Para fazê-lo, seria preciso mudar por completo toda uma filosofia de trabalho das categorias de base brasileiras, ainda viciadas em produzir atletas fortes e rapidamente vendáveis no mercado. Há exceções, é claro, mas, como aponta Calçade, existem também ameaças vindas de outros fatores, externos. Um deles, a voracidade de empresários e investidores, que não têm qualquer interesse em que o jogador em evolução permaneça por muito tempo no clube que o forma. Pelo contrário, mercadoria que é, o jogador precisa circular, e rápido, para que dê lucro. Enquanto esse problema não for resolvido, ou amenizado, não vejo como jovens promessas possam abastecer o time principal do clube em que se formam.

E há, claro, a questão da filosofia de trabalho. Ou melhor, a ausência dela. A proverbial falta de convicção do brasileiro em si mesmo tem sido responsável pela imitação acrítica de modelos exteriores. Se a onda é o futebol-força, busca-se jovens com saúde de vaca premiada, na imortal expressão de Nelson Rodrigues.

Mas, assim como a imitação do futebol-força criou apenas um simulacro de futebol europeu, com jogadas toscas, entradas viris e chutões, a imitação pura e simples do Barça não produzirá senão times com obsessão pela posse de bola, sem saber o que fazer com ela.

Por enquanto é o que se vê por aí. É pouco. Seria preciso um pouco mais de pensamento no futebol brasileiro. E fé em seu próprio futuro. Não podemos esperar que essas virtudes venham por si sós. Cabe a nós.

(Coluna Boleiros)

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