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A barca furada de Noé

Luiz Zanin Oricchio

21 de abril de 2014 | 20h44

Sempre achei os filmes de Darren Aronofsky supervalorizados. Não entra em minha cabeça que Cisne Negro, por exemplo, possa ser considerado “arte”, embora tenha competido, e com relativo sucesso, na Mostra de Veneza. Aliás, Aronofsky ganhou o Leão de Ouro, em Veneza, em 2008, com O Lutador, sobre o praticante decadente de telecatch interpretado por Mickey Rourke. Bom, entre parênteses, se formos levar ao limite da seriedade o que acontece em festivais…

Mas isto sou eu, alguns colegas podem ter ideias diferentes. Em todo caso, fui ver Noé com uma certa expectativa. Achava que, dentro de suas limitações, Aronofsky se mexeria melhor no universo do cinema-pipoca do que naquele em que se vê obrigado a dizer grandes coisas ao mundo. Aqui, tinha um relato bíblico nas mãos, uma história consagrada, que todo mundo conhece, um bom enredo, como costumam ser os do Antigo Testamento.

Mas, e o que é aquilo? Forças da luz metamorfoseados em Transformers, e de pedra, ainda por cima? Muito trash, para falar a verdade.

Além disso, acho que ele perdeu a boa chance de dar relevo aos animais. Ora, quem são os personagens da história? Noé, claro, e sua família conflituosa, mas também os bichos que, desde o nosso imaginário infantil, entram aos pares na arca para garantir a sobrevivência das espécies após o Dilúvio.

No filme, eles aparecem, rapidamente, com aquele formato digital para o qual é melhor não dedicar muita atenção, porque mais fakes não podem ser. Entram na arca e ficam quietinhos, dormidos, porque assim não interferem no correr da trama.
Que, claro, tem de ser o da luta do Bem contra o Mal, na figura de um infiltrado que pode botar a perder até mesmo os planos do Criador.

O único aspecto interessante que notei foi no personagem conflitado de Noé, que precisa cumprir o desígnio divino (ou o que ele julga ser), mesmo com o preço do peso eterno de sua consciência. Em resumo, teria de cometer um crime horrível para, em sua interpretação, melhor servir ao Senhor. Nos momentos de menor ridículo, Russell Crowe até que consegue passar algo dessa personalidade atormentada. Seria capaz de cometer esse crime para cumprir a ordem que julga ter recebido. Mas, como, se Deus não lhe responde? (O silêncio de Deus já rendeu obras bem melhores, a começar pelo Sétimo Selo, passando pela peça O Livro de Jó, na qual brilhava o grande Matheus Nachtergaele).

Mas o principal problema de Aronofsky é ter adaptado a narrativa a um suposto gosto infanto-juvenil, que necessita de monstros de pedras, destruição e personagens chapados para ir aos cinemas. Desse modo, o tormento de Noé passa a ser algo secundário, uma variante light do tema da segunda chance, caríssimo ao cinema de Hollywood.

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