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A barbárie segundo Bergman

Luiz Zanin Oricchio

29 de junho de 2009 | 22h21

Talvez não exista sentimento mais doloroso que o da vergonha. Foi ele que Bergman resolveu investigar no filme que leva justamente esse nome – e está agora sendo lançado pela Versátil (R$ 44,90). Mas, por um momento, poderíamos pensar que se trata de uma obra estranha à tradição do cineasta. Afinal, ele é o diretor da alma, da intimidade, da psicologia dos personagens, dos seres atormentados que formam a sua galeria de tipos. E tudo isso é verdade. No entanto, este é conhecido como o filme no qual Bergman coloca seus personagens contra o pano de fundo de uma situação terminal – a guerra. A maior de todas, a 2ª Guerra Mundial.

Seria então um filme de guerra, a guerra segundo Bergman? Em certo sentido, sim. Temos lá todos os componentes de encenação dessa que é a “continuação da política por outros meios”, como dizia dela o seu teórico maior, Carl von Clausewitz. Essa frase esperta, ainda que profunda, disfarça e até enobrece essa situação em que todos os demônios podem ser soltos. E então aqui voltamos ao terreno preferencial de Bergman, porque se existe alguém que entende de demônios é ele mesmo.

Eles é que estarão rondando o casal formado por Liv Ullman e Max von Sydow que, para fugir da guerra, instalam-se numa ilha isolada. O filme foi realizado na Ilha de Farö, onde Bergman viveu boa parte de sua vida e onde veio a morrer, muitos anos depois do término deste filme, datado de 1968. A história é ilustração daquela famosa tese de Trotski, segundo a qual as pessoas não precisam se interessar pela guerra porque a guerra irá se interessar por elas. É o caso de Jan e Eva, que são mostrados num primeiro momento de intimidade, mas com as coisas não andando nada bem entre eles. Não se sabe exatamente por que, mas algo não vai bem com o casal. Jan é um músico e parece hipersensível, o que incomoda a mulher. Ela lhe diz que não tolera aquele excesso de emotividade. Dá a entender que parece pouco másculo da parte dele. Mas, a esses conflitos pessoais outros virão se somar e bem mais graves, quando soldados começam a aparecer pelas redondezas.

Em entrevistas que concedeu ao longo de sua vida, Bergman referia-se a esse filme como a uma espécie de pesquisa que fez sobre si mesmo. Queria saber qual teria sido a sua reação se a Suécia tivesse entrado na 2ª Guerra Mundial e ele próprio arrastado ao conflito. Disse que se achava um covarde fundamental, que lhe faltava coragem física e mesmo psicológica para suportar os sofrimentos de uma situação-limite. Disse mais, que se sentia corajoso apenas quando sentia raiva, e então podia ser valente até a temeridade, mas apenas nessa circunstância. Dessa forma, Vergonha será o filme em que esses sentimentos serão testados no seu limite. O medo, num primeiro momento, depois a aceitação da humilhação como condição de sobrevivência, a submissão ao inimigo e em seguida às próprias autoridades locais, na figura de um chefete, Jacobi (Gunnar Bjornstrand), que os ameaça e depois os “protege”, aproveitando-se então da mulher.

Essa sequência de mutações da personalidade, que se dá ao sabor dos imperativos da guerra e da sobrevivência se observam sobretudo na pessoa de Jan. Será dele a grande curva dramática do filme. A pergunta que Bergman se fazia era: o que é preciso acontecer para que o pequeno fascista que existe adormecido em nós finalmente desperte para o mundo? E a resposta parece ser: basta que ele se sinta ameaçado em sua segurança para que isso aconteça. O desfecho da história não poderia ser mais melancólico, com Bergman evocando os símbolos mais poderosos da deriva e do naufrágio. Nenhuma salvação à vista. Contaminada pela barbárie, a civilização parece condenada. Talvez não ao desaparecimento, mas à maldição de nunca mais ser a mesma, condenada a abandonar qualquer esperança de pureza e ingenuidade.

Como em vários de seus filmes, também em Vergonha Bergman coloca em cena artistas como personagens. Eva e Jan são músicos, vivem supostamente no mundo da sensibilidade. O próprio Jacobi é músico. Mas é como se tudo nos dissesse que a arte não basta para preservar o homem da barbárie. Ela está lá, e provavelmente sobreviverá à insanidade dos homens. Mas não será bastante forte para preservá-los da decadência quando instintos mais básicos estiverem em jogo.

Bem ao seu estilo, também neste filme Bergman coloca o campo de batalha da dramaturgia no rosto dos atores. E, para isso, encontra dois magníficos instrumentos de expressão em Liv Ulmman e Max von Sydow. Sua desesperança e angústia se dão contra o pano de fundo de uma ilha invernal, fotografada em preto e branco pelo colaborador de tantos filmes, Sven Nykvist.

Esse ambiente opressivo conduz os personagens ao mais doloroso encontro consigo mesmos. Sem qualquer alívio, como costuma acontecer com Bergman. O rosto coberto pela vergonha também serve para disfarçar o pavor, e o desalento. Se um filme pensa por palavras e imagens, este pensa no colapso final de uma civilização, que jamais se recupera dos horrores perpetrados na 2ª Guerra: os milhões de mortos, os campos de concentração, a perda da confiança de que a sofisticação cultural seria o antídoto infalível contra o instinto de destruição. Um detalhe a mais: o filme leva a data de 1968, mas foi pensado e escrito antes que a Primavera de Praga fosse esmagada pelos tanques soviéticos e que a Guerra do Vietnã entrasse em sua escalada mais intensa. Em entrevista, Bergman diz que, se ao escrever o roteiro tivesse levado em conta esses fatos, o filme provavelmente seria ainda mais duro do que já é.

Melhor nem imaginar como poderia ter sido.

(Caderno 2, 29/6/09)

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