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A auto-estima recuperada

Luiz Zanin Oricchio

03 Maio 2007 | 22h23

Amigos, minha coluna desta terça no Esportes do Estadão:

Não há mal que sempre dure nem bem que nunca termine. Essa frase da sabedoria popular deve estar na cabeça de torcedores do Santos e São Caetano. Quem diria, afinal, que o Santos, cantado como o melhor time do País, com um aproveitamento de sonho desde o início do ano, estaria prestes a perder um título que, uma semana atrás, parecia no papo? E quem diria que o São Caetano, vivendo um longo inferno astral desde a morte em campo do seu jogador Serginho, um time rebaixado ano passado para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro, se encontraria agora às vésperas de conquistar seu segundo título importante, repetindo o feito de 2004? Bem, o futebol tem dessas coisas.

E alguém aí pode se queixar do resultado de domingo no Morumbi? Duvido que o mais fanático dos santistas deixe de reconhecer que o São Caetano jogou melhor e construiu de forma natural a sua vitória. O Santos entrou de salto alto? Cometeu o pecado da soberba? Achou que fatura já estava liquidada e que poderia ganhar o jogo na hora em que quisesse? Talvez haja um pouco de cada ingrediente no coquetel da derrota. Mas o fundamental, a meu ver, é que o Santos jogou sem sabedoria e paciência. E perdeu para um adversário que teve essas qualidades. Um jogo se ganha na cabeça, em primeiro lugar.

O Santos jogava por dois resultados iguais, e enfrentava um time que tem o seu forte nos contra-ataques. Por que então não esperá-lo, cozinhar o galo, aguardar por um momento de descuido e aplicar ao São Caetano uma dose do seu próprio remédio? Talvez adiar para domingo próximo a decisão. Afinal, esse título se decide em 180 minutos e não em 90. Claro, se o jogo tivesse terminado em 0 a 0, talvez a torcida santista ficasse insatisfeita. E daí? Hoje esse resultado não seria uma bênção para o Santos?

Mas acontece que o Santos tinha pressa de decidir o título paulista. Sonhava liquidar a fatura logo no primeiro encontro, pois afinal havia algo mais importante a fazer, que era dar início ao mata-mata na Libertadores. Esqueceu-se de que um descuido botaria essa aspiração por terra e foi o que aconteceu ao tomar um gol logo aos 8 minutos de jogo. Mérito de Luiz Henrique, que marcou, e de Ademir Sopa, que o lançou. Mas com colaboração da zaga santista, que dormiu no lance. E, a partir daí, a relação do jogo se inverteu. Era o Santos quem tinha de fazer o resultado. O São Caetano dominou o primeiro tempo e o Santos melhorou no segundo, com Jonas e Pedrinho. Sempre esteve exposto aos contra-ataques. E, num deles, Fábio Costa, que tem crédito de sobra, cometeu um pênalti primário.

O campeonato acabou? Não. Mas o São Caetano está com a mão na taça, como se diz. Vai jogar como gosta e tem um time muito bem estruturado, como provam os 4 a 1 sobre o São Paulo e os 2 a 0 sobre o Santos. Este, ainda tem de ir a Caracas, na Venezuela, e voltar. Dá para virar? Dá, e no futebol não existe o impossível. Mas existem os resultados mais prováveis e os mais improváveis. A zebra, agora, seria o Santos se reencontrar com o gol, depois de 270 minutos de seca, e fazer logo dois (sem tomar nenhum) contra um adversário dos mais tinhosos.

Quanto ao São Caetano, está na estrada do paraíso. E pode até perder o jogo de domingo próximo, e mesmo o campeonato, que já terá realizado uma grande conquista. Recuperou o respeito dos adversários e, acima de tudo, a sua auto-estima. São bens preciosos. Tanto quanto um título de campeão.