A arte da crítica (9): Os dilemas da interpretação e a anamorfose de Holbein
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A arte da crítica (9): Os dilemas da interpretação e a anamorfose de Holbein

Se a crítica é uma arte da interpretação, até onde esta pode ir, sem se converter em delírio?

Luiz Zanin Oricchio

04 de maio de 2019 | 13h43

Os Embaixadores, de Hans Holbein (1533)

 

Às vezes me pego pensando que nossas obsessões temáticas são limitadas. Passamos a vida trabalhando um pequeno número de temas e suas adjacências ou circunstâncias.

Se me permitem um desvio biográfico, digo que um desses temas que me perseguem (e eu a ele) é o da interpretação.

Quando eu era psicanalista e aluno da pós-graduação em Psicologia Clínica na USP, defendi uma dissertação de mestrado sobre o conceito de interpretação em Freud. No doutorado (que não terminei) estendi a pesquisa a Lacan, “re-leitor” pós-estruturalista de Freud. No caminho, me meti num cipoal de textos e conjecturas, abrangendo da hermenêutica medieval (com suas conotações religiosas de leitura do texto bíblico) ao materialismo de Marx, as cogitações de Freud sobre a análise terminável e interminável e a filosofia de Nietzsche. Entre muitas outras coisas, a começar pela revisita crítica da literatura francesa e do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.  

Aliás, esses três nomes – Marx, Nietzsche, Freud – compõem o título de um belo livrinho de Michel Foucault em que os esses autores são considerados exemplos acabados de “mestres da interpretação”, ou, o que quase equivale, “a mestres da suspeita”.

Claro, a cada vez que se impõe um trabalho de interpretação é porque suspeitamos de que o que se dá na aparência não nos conta toda a verdade. É preciso um trabalho de interpretação para decifrar o que algo “quer dizer”. Os textos de suspeita emblemáticos seriam o primeiro volume de O Capital, de Marx, A Genealogia da Moral, de Nietzsche, e A Interpretação dos Sonhos, de Freud.

E aqui chegamos à crítica. Diante de um filme enigmático, a pergunta que com toda a honestidade nos ocorre é: “o que o diretor quis dizer?” Me lembro de infinitas discussões juvenis sobre o desfecho de 2001 – uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, ou sobre o sentido dos filmes de Buñuel, ou, melhor ainda, sobre as obras de Alain Resnais. Quem foi jovem e não ficou aturdido ao ver pela primeira vez O Ano Passado em Marienbad não sabe o que significa viver.

Há um prazer nisso, sem dúvida. Me lembro de uma retrospectiva completa da filmografia de Robbe-Grillet num cineminha em Denfert Rochereau, em Paris. Éramos poucos, porém fiéis devotos dos enigmas propostos pelo bruxo do nouveau roman e também roteirista e cineasta. O desafio de colocar-se diante do difícil e tentar entendê-lo é um dos maiores prazeres da vida intelectual.

Hoje evita-se muito a dificuldade por medo do repúdio do público. É uma regra de mercado, mas que contempla suas exceções. Uma delas está em cartaz, o longa Entardecer, do húngaro László Nemes (o mesmo de O Filho de Saul). Nemes, em démarche misteriosa, tenta captar o mal-estar que precede a catástrofe numa Europa que parecia haver atingido o cume civilizatório no início do século 20 e estava apenas incubando o ovo da serpente. “Coisas belas servem para esconder o horror do mundo”, diz um personagem. Apesar do desfecho um tanto didático (mas não por isso menos belo), a obra parece acreditar no poder do enigma e da sugestão como motivadores de reflexão no distinto público. Mesmo porque vivemos em época talvez semelhante, na qual um ápice de desenvolvimento tecnológico parece conviver com a ascensão de barbáries diversas, preconceitos, pensamento mágico e religiosidade febril. O Brasil atual é um dos casos extremos desse paradoxo.

Mas é claro que o leitor sutil já terá adivinhado que as artes da interpretação se aplicam não apenas ao complexo e ao obscuro, mas àquilo que é em aparência simples.

Há uma pintura que admiro muito, Os Embaixadores, de Hans Holbein. Nesse quadro de 1533, vemos dois diplomatas jovens, ricamente vestidos e cercados de objetos de valor. A imagem é límpida, detalhista, quase hiper-realista. No entanto, há uma estranheza no quadro. Em sua parte de baixo, perto dos pés dos diplomatas, paira um objeto indecifrável, uma imagem agressiva, escura e em todo destoante do resto do quadro. Se olhamos de frente, mesmo que com toda a atenção, não a deciframos. Porém, de certo ângulo lateral, percebemos, com espanto, tratar-se de uma deformação – uma anamorfose – de um crânio humano. É a presença da morte, o “memento mori” numa imagem toda ela construída sobre a vaidade deste mundo. A obra de Holbein só encontra seu significado mais profundo quando conseguimos enxergar a anamorfose.

Muitas vezes me pergunto se a questão chave da crítica – e da interpretação – talvez seja a percepção desse “instante decisivo” da obra, para usar uma expressão do fotógrafo Cartier-Bresson. Algo que ali está que, compreendido, ilumina toda a obra e, ignorado, a deixa na sombra ou sujeita a leituras opacas e sem vida, como são muitas vezes as críticas – e não estou falando apenas das de cinema.

Mas também parece claro que o intérprete da obra não pode se contentar com a percepção de um detalhe, por importante e fundamental que seja. Deve levar em conta o conjunto da obra e, nesse sentido, a análise (no sentido químico do termo, da separação dos elementos) parece se impor.

Qual o seu limite?

Essa é uma das grandes questões a respeito da interpretação. Quando o sentido se esgota e devemos parar o trabalho de análise e interpretação? Umberto Eco escreveu um ensaio sobre a “superinterpretação”. Freud deu como título a um dos seus ensaios mais conhecidos e discutidos de Análise Terminável e Interminável, sugerindo que talvez não haja um ponto final no trabalho de análise e que esta deve ser concluída num momento talvez arbitrário, em que a construção de significados em torno de uma vida começa a patinar em torno do nada.

Isso significa que a interpretação terminou e todo o sentido foi esgotado? Não, apenas que talvez não se possa mais avançar sob pena de sairmos do esclarecimento para entrar no delírio. Foucault fala sobre isso em seu livrinho sobre Freud, Marx e Nietzsche a que já me referi.

Em um dos melhores livros de crítica que conheço, Cineastas e Imagens do Povo, Jean-Claude Bernardet analisa documentários brasileiros que têm o povo como tema. Interessa-lhe saber a relação que os cineastas (em geral pessoas de classe média) mantêm com esse “outro de classe” que é o povo, o proletário, o caiçara, homem do sertão. Aborda os filmes com minúcia extraordinária, revendo-os várias vezes e dando sentido a detalhes ínfimos de filmagem, que talvez passem despercebidos a um olhar menos atento.

Mesmo assim, Jean-Claude diz que o tipo de análise que está fazendo poderia se desdobrar até o infinito e, portanto, é preciso parar em determinado ponto.

Há outro ponto, quem sabe, ainda mais grave. O crítico – o intérprete – não se aplica sobre “fatos”, coisas em si. Não há uma essência a ser atingida, e que determinaria de vez o fim do conflito de interpretações. Interpretamos algo que já é, em si mesmo, uma interpretação. No nosso caso, criticamos um filme que não é nunca, nem mesmo quando documentário, um registro direto da realidade, mas uma interpretação do real. Entre outras coisas, uma crítica é, também, uma interpretação de uma interpretação.

São esses os limites da interpretação, que apenas o intérprete é capaz de demarcar – no melhor dos casos, é claro.

(work in progress. continua)

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