A arte da crítica (8): Curta-metragem também é filme?
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A arte da crítica (8): Curta-metragem também é filme?

Todos responderão que sim, mas a verdade é que os curtas costumam ser relegados a segundo plano pelos críticos

Luiz Zanin Oricchio

23 de abril de 2019 | 11h22

‘La Jetée’, de Chris Marker

A pergunta do título é pura provocação: claro que é filme. Tamanho não é documento e há curtas fundamentais tanto quanto existem longas descartáveis. Não é a metragem ou a duração que fazem a qualidade ou importância de uma obra. Isso sabemos.  

Resolvi discutir aqui esse assunto porque preparo um artigo sobre curtas-metragens e me dei conta (mais uma vez) de que nós, críticos, não prestamos a devida atenção aos filmes de menor duração.

Claro que todos os colegas se levantarão em coro e protesto ao ouvir ou ler a afirmação acima: “Eu não! Eu não!”. Mas, ponham a mão na consciência (como se dizia antigamente) e respondam: consagram tanto tempo e interesse aos curtas como fazem aos longas? Deixo a cada qual a resposta.

Existem motivos para isso. Mas não há justificativas. Os curtas-metragens saíram do dia a dia das pessoas que vão aos cinemas. Não passam mais na tela grande. Antigamente era hábito ter um ou dois curtas-metragens antes da exibição do longa. Havia, ou existe ainda sem ser cumprida, a tal lei do curta, que prevê esse tipo de exibição. Mas o fato real é que o curta sumiu de vista das salas de cinema.

Confina-se aos festivais. Seja nos festivais a ele consagrados – como o Festival de Curtas-metragens de São Paulo – seja nos festivais de cinema, nacionais ou internacionais, que a ele sempre reservam seu espaço. Até mesmo o Oscar reserva espaço aos curtas-metragens, documentais e de ficção.  

No meu caso, frequentador há décadas de festivais de cinema, é neles que vejo os curtas-metragens. Tento, há anos, me disciplinar e escrever de maneira equânime sobre os curtas. Nem sempre tenho conseguido. Os longas absorvem e, quando escrevemos para o impresso, há sempre a questão do espaço a limitar nossas boas intenções. Essa desculpa não serve quando escrevemos para blogs e sites. Neles, o que vale é o tempo. E esse tempo é quase todo entregue aos longas.

Uma exceção na nossa categoria era o saudoso colega Cid Nader. Os curtas-metragistas o adoravam porque o Cid escrevia religiosamente sobre seus filmes. Era um caso único, pelo menos em meu conhecimento. Outros colegas devem seguir a filosofia de trabalho do Cid, mas ignoro. Enfim, o Cid dava ao curta sua real importância – a de ser uma obra como as outras e por isso digna de se transformar em objeto de reflexão em uma crítica.

Uma breve revisão histórica bastaria para nos tirar dessa alienação crítica. É suficiente pensar nos curtas dos primórdios do cinema, nos curtas de Chaplin, nessa obra-prima da ficção científica que é La Jetée, de Chris Marker, para nos convencermos de que o curta deve ser colocado em pé de igualdade em relação ao longa. Ou lembrarmos de alguns títulos nacionais como A Velha a Fiar, Di, Couro de Gato, Nelson Cavaquinho ou Ilha das Flores para nos convencermos de que a produção nacional de curtas se equipara à internacional em termos de qualidade, inventividade e relevância.

O curta desperta outras questões críticas, além dessa necessária chamada à ordem de sua importância.

Por exemplo, faço uma analogia com a literatura. O curta está para o longa assim com o conto está para o romance. Alguém que escreve apenas contos é menor que um romancista? Nem pensar. Dalton Trevisan é menor? Jorge Luis Borges é menor?

Julio Cortázar, que escreveu contos, ensaios e romances, fazia uma analogia com o boxe: o contista tinha de vencer por nocaute; o romancista podia vencer por pontos. Este trabalha na extensão, no tempo; aquele na compressão, na brevidade e na intensidade.

Acho que esta tese, transposta para o cinema, nos ajuda a pensar nessa arte da síntese que é o curta-metragem. Entendo também que esta qualidade é o maior desafio para seus realizadores. É muito difícil ser sintético e claro ao mesmo tempo. Exige um grau de abstração muito grande, no sentido de captar a essência das ideias gerais e transformá-las em ideias audiovisuais de grande impacto. Para vencer a luta por nocaute.

A outra questão, com a qual fecho esse texto, é a seguinte: dada essa característica especial dos curtas-metragens, seria conveniente dedicarmos a eles um olhar crítico também diferenciado? Em outras palavras, a crítica que praticamos nos longas pode ser aplicada, sem reservas, aos curtas? Ou teríamos de pensar em ferramentas críticas específicas para esse formato?

(work in progress. continua)

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