A arte da crítica (7): Não é só pelos 7%
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A arte da crítica (7): Não é só pelos 7%

Até que ponto uma crítica positiva ou negativa influencia na bilheteria de um filme?

Luiz Zanin Oricchio

12 de abril de 2019 | 11h46

 

Ontem participei de um seminário sobre a crítica no Cinesesc e, lá pelas tantas, surgiu a pergunta de sempre: qual a influência da crítica no desempenho comercial de um filme?

Coube a mim responder. Esbocei um raciocínio histórico que coloca a crítica cinematográfica em perspectiva. Entendo que a crítica teve centralidade no ambiente cultural entre os anos 1950 a 1970, mais ou menos. Não apenas a crítica cinematográfica, mas a literária, cênica, de artes plásticas, etc.

Era, suponho, lida com respeito pelos aficcionados das áreas respectivas. E, claro, pelos artistas que, se não a respeitavam tanto, a temiam por suas consequências. Era um tempo em que uma crítica assinada por um crítico famoso podia influenciar decisivamente no sucesso ou no fracasso de uma obra.

Tempo da cinefilia, um tempo passado, menos dispersivo que hoje.

Acho que a crítica foi perdendo essa importância mercadológica com o passar dos anos e com as mudanças na agenda cultural e no próprio jornalismo cultural, do qual ela faz (ou fazia) parte.

O mundo de hoje é muito mais heterogêneo e fragmentado que o de décadas atrás. No cinema, os lançamentos se multiplicaram. Em uma cidade como São Paulo 10 a 15 novos filmes estreiam a cada semana. Sem contar as mostras, festivais, retrospectivas e outros eventos fora do circuito normal. E sem contar o que surge na TV a cabo e nas plataformas de streaming. E sem levar em conta as séries, esse novo cavalo de batalha da crítica.

O mundo fragmentou-se e diluiu-se. Tanto no plano da produção como no da recepção crítica. Em décadas passadas, o crítico era um jornalista empregado em algum dos poucos veículos de comunicação existentes. Me lembro das antigas “cabines” (as sessões para imprensa) de décadas atrás. Éramos meia dúzia, se tanto. Hoje, uma “cabine” de blockbuster enche uma sala de cinema comercial. Numa delas, cheguei meio em cima da hora e tive de assistir ao filme sentado no degrau.

Enfim, um mundo no qual basta alguém abrir um blog e começar a postar suas impressões para se intitular crítico de cinema presta-se mesmo a alguma confusão.

Sim, é um mundo muito estranho e, se tal profusão de escribas (e agora de “influencers”) democratizou a opinião, também a transformou num pudim informe de achismo sem qualquer critério. Mas, por que se preocupar com isso? Quem lê tanta notícia?, como se perguntava Caetano Veloso ainda nos anos 1960? Cabe a cada um de nós escolher quem vai ler e seguir.

Nesse ambiente dispersivo, repito a pergunta: qual a influência da crítica no desempenho comercial de um filme?

Bem, aqui no Brasil ninguém sabe ao certo. Sabe-se que cineastas, distribuidores e exibidores odeiam as famosas estrelinhas e, no caso do Rio, os “malditos” bonequinhos do Globo. São recursos gráficos de indicação de qualidade das obras. Julgamentos sumários, que se dispensam do esforço da argumentação. Colocam o polegar para cima ou para baixo, e pronto.

A crítica mora em outro domínio, no texto. Minimamente que seja, precisamos argumentar em favor ou contra uma obra com argumentos racionais, partilháveis com outras pessoas.

Quanta gente se baseia nesse tipo de texto, hoje em dia, para decidir se vai ou não ao cinema ver este ou aquele filme?

Não sabemos.

Mas um crítico como Jean-Michel Frodon (ex-Cahiers du Cinéma, hoje na revista Slate), encara a questão de frente em seu livro La Critique de Cinéma.

De acordo com Frodon, uma crítica tem influência em cerca de 7% do público que vai ver um filme no cinema.

(Coloque-se como caso à parte os blockbusters, turbinados por milhões de dólares em publicidade e que prescindem de qualquer auxílio crítico).

Como chegaram a esse número de 7%? Através de pesquisas, perguntando a cada espectador na porta dos cinemas por que havia se decidido por aquele filme. Cerca de 7% responderam que haviam lido uma crítica e resolveram conferir a obra.

É pouco?

Frodon se pergunta e responde que não. A maior parte das decisões de ver um filme vem não da propaganda, mas do fenômeno aqui chamado de “boca a boca” e na França “de bouche à l’oreille”. São as recomendações que grupos familiares ou de amigos se fazem. “Esse filme você não pode perder”. Ou, no negativo, “fuja desse abacaxi”. (Nunca pude entender por que fruta tão deliciosa significa na gíria obra de má qualidade). Desse modo, por estimular o boca a boca, os efeitos da crítica podem se multiplicar e ir além dos 7%.

Além disso, argumenta Frodon, uma crítica vai  além dos seus efeitos no lançamento comercial em sala. Uma crítica positiva acompanha o filme em sua trajetória posterior, “contribuindo para abrir o acesso a cadeias de televisão, festivais, vendas no estrangeiro, a uma edição em vídeo”. Podemos atualizar o texto e acrescentar que uma crítica pode favorecer que a obra seja comprada por uma plataforma de streaming e vista por seus assinantes.

Além disso, uma crítica pode estimular a carreira de um jovem realizador, mesmo que seu trabalho não tenha alcançado sucesso comercial. Pode lhe abrir caminho para obter novos financiamentos e assim dar seguimento a sua carreira. Pode lhe abrir portas em festivais. E assim por diante. Como escreve Frodon, “Enfim, a crítica constrói um ‘valor simbólico’ dos filmes, que não corresponde forçosamente a seus resultados comerciais, mas participa de seu destino, e do destino daqueles que o fizeram”.

(work in progress. a continuar)

Tudo o que sabemos sobre:

A Arte da CríticaJean-Michel Frodon

Tendências: