A arte da crítica (5): formação e intuição do crítico
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A arte da crítica (5): formação e intuição do crítico

Claro que existem especificidades nos vários ramos que compõem a crítica: a crítica literária, a cinematográfica, a de artes cênicas, visuais, música, etc. Cada qual supõe um saber particular. Mas, imagino que, em certo grau de abstração, podem, em alguma medida e guardadas as diferenças, ser pensadas como disciplinas de um campo comum, reunidas sob o selo geral da “crítica de arte”.

Luiz Zanin Oricchio

26 de março de 2019 | 00h15

Claro que existem especificidades nos vários ramos que compõem a crítica: a crítica literária, a cinematográfica, a de artes cênicas, visuais, música, etc. Cada qual supõe um saber particular. Mas, imagino que, em certo grau de abstração, podem, em alguma medida e guardadas as diferenças, ser pensadas como disciplinas de um campo comum, reunidas sob o selo geral da “crítica de arte”.

Como não gosto de fronteiras, tomo emprestadas algumas ideias da crítica literária, através da figura de um dos seus críticos brasileiros mais ativos, Wilson Martins (1921-2010).

Vamos logo esclarecer. Martins não é santo de minha inteira devoção. Na área literária, fico com outros, e, acima de todos, com Antonio Candido Mello e Souza.

Martins teve uma carreira exemplar e prolífica como crítico. Escreveu um monumento chamado História da Inteligência Brasileira, em sete volumes, se não me engano. E foi, a vida inteira, crítico de rodapé de jornal, analisando e avaliando livros novos, no calor da hora e sem recuo histórico.

Em 2001, por ocasião dos seus 80 anos, saiu um livro em sua homenagem, Mestre da Crítica (Top Books), em que outros críticos como Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Edson Nery da Fonseca, Antonio Candido falam sobre ele. Mas o mais interessante é o texto que Martins escreve sobre si mesmo. Nele, há tópicos que, a meu ver, servem de reflexão para qualquer área da crítica de artes, a crítica cinematográfica em particular, como é o nosso caso. Deem uma olhada, em especial no que diz respeito à “intuição do crítico”, que é uma grande e difícil questão a ser pensada.  

Formação: Martins se diz educado pelo “sistema antigo, de rigor, disciplina e obediência, sem excessos de complacência”. Essa base cultural, hoje negligenciada, prepara o caminho do crítico. Mas sua formação específica se dá por autodidatismo. Martins era viciado em leitura e comentar os livros alheios pareceu-lhe natural como andar e respirar. Seu primeiro emprego como crítico literário foi no jornal Estado de S. Paulo, onde sucedeu a ninguém menos que Sérgio Milliet.

Cânone: ninguém decreta quais são as obras canônicas de uma literatura. Os textos fundamentais ganham lugar no cânone por um longo processo de consenso. Ou seja, foi preciso recuo histórico para que hoje ninguém perdesse tempo discutindo se Shakespeare ou Proust são ou não autores importantes. Nem sempre foi assim. Basta lembrar que André Gide, que era leitor profissional da Gallimard, recusou o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido. A onda do politicamente correto e do multiculturalismo procura colocar o cânone em xeque. Tem lá suas razões, pois a tentação do Cânone é o conservadorismo. Mas sua contestação acrítica termina por excluir autores importantes e coloca outros em seu lugar. Cria um cânone paralelo.

Qualidade literária: é o que deve guiar a crítica, o seu critério mais  importante. Mas o que é a qualidade? Ninguém consegue definir. Santo Agostinho dizia isso do tempo. Todo mundo sabe o que é. Quando se procura defini-lo, ninguém sabe mais. Única solução: o consenso, mais uma vez. Para esperar que o consenso se estabeleça, é preciso dar tempo ao tempo. E a qualidade do crítico? Sujeita-se à mesma condição. Há críticos que parecem brilhantes em sua época e depois são esquecidos. Outros ficam.

História da Inteligência: é a obra mais famosa de Martins e parte, segundo ele mesmo, de uma idéia “um tanto infantil”. Se um país tem um bom dentista, deve ter também um bom romancista. Bem, essa idéia tanto infantil quanto óbvia parte do pressuposto de que a literatura é apenas um aspecto da vida inteligente de um país. No fundo, tudo deve estar interligado na vida intelectual. Essa observação é de grande interesse para o Brasil, país onde cada qual se julga cercado de incompetentes, com a honrosa exceção dele mesmo ou da corporação a que pertence.

Polêmica: segundo Martins, a crítica não deve se render à polêmica, embora tenha sempre um fundo polêmico. Ou seja, é bobagem bancar o bufão da imprensa, assumindo o papel de polemista profissional e discutindo o sexo dos anjos. Mas também não se pode fugir da briga, quando a ocasião exige. A polêmica deve se restringir às ideias, e não envolver pessoas. Ser polêmico, ou potencialmente polêmico, faz parte do métier, porque o crítico não se coloca passivamente diante de uma obra. Faz dela uma leitura ativa e avalia até que ponto ela chega a realizar aquilo a que se propõe.

Crítica jornalística: muitas vezes esnobada pela crítica universitária. Sem motivo, diz Martins. Na universidade não se faz crítica, faz-se ensaio. Você não pode escrever uma crítica sobre Machado de Assis; pode escrever um ensaio sobre ele. O ensaísta só vem depois do crítico e trabalha justamente sobre o longo assentimento forjado por gerações de críticos, que tiveram o topete de dar sua opinião sobre as obras no momento em que elas estavam saindo do forno. “Ele (o ensaísta) só escreve um longo ensaio sobre José de Alencar depois que a crítica disse que José de Alencar é um autor que merece um longo ensaio.” O ensaísmo aparece depois que a crítica já disse o que tinha a dizer. A crítica é trabalho de desbravadores e se faz no calor da hora.

O leitor: quem lê a crítica no jornal? Certamente o leitor instruído, “aquele que tem tanto interesse na literatura quanto na construção intelectual tal como o próprio crítico”. Esse destinatário da crítica é alguém que gosta realmente de ler, sem o que não existe propriamente vida intelectual. Ninguém pensa abstratamente se essa atividade não lhe dá prazer. Por isso, a boa qualidade da crítica depende (também) da boa qualidade do leitor que se tem. E que, por ser inteligente, nem por isso precisa concordar com aquilo que lê. Uma crítica não é feita para gerar assentimentos, mas para estimular o desenvolvimento de idéias. “Mesmo o crítico com quem não se concorda é um crítico útil, ele justamente obriga o leitor a pensar sozinho”, diz.

Crítica “científica”: o crítico é importante para estimular esse debate de idéias. Esse debate continua porque não existe uma crítica “científica”, exata, dogmática, que diga a última palavra sobre determinada obra. A atividade crítica como ciência exata é, segundo Martins, uma indestrutível quimera do pensamento literário. Refere-se à utopia da opinião que não pode ser contraditada por outra opinião. O que não implica no extremo oposto, o relativismo selvagem, o vale-tudo opinativo. A crítica é o desenvolvimento de uma opinião, assinada por alguém que realmente conheça o assunto e tenha a embasá-lo uma cultura geral tão vasta quanto possível. Isso implica, também, a recusa da especialização – “quem sabe só literatura não sabe nem literatura”, diz. Mas a erudição de nada vale sem a intuição, e vice-versa.

Esta última frase me ficou porque coloca em pauta uma dupla necessidade, erudição e intuição. Não é OU. É E. Inclusivo. Erudição custa tempo e esforço para ser obtida. Mas não é tudo. Todos conhecemos gente muito culta que só diz ou escreve platitudes. Conhecemos também gente ignorante, capaz de aqui e ali ter uma visão iluminada sobre um assunto que, em tese, requer estudo aprofundado para ser dominado. É a intuição.

Intuição é um tema espinhoso da crítica, assim como a emoção. Talvez não possam ser definidas, mas apenas sentidas. Mesmo assim, devemos tentar entender esses domínios de apreensão tão difícil.

(work in progress. a continuar)

Mais conteúdo sobre:

A Arte da CríticaWilson Martins