A arte da crítica (4). O parricídio
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A arte da crítica (4). O parricídio

Cada movimento de ruptura tem a necessidade de "matar o pai" e aliar-se a um antepassado mais sábio. E o que a crítica tem a ver com isso?

Luiz Zanin Oricchio

21 de março de 2019 | 00h17

Cena do filme Os Irmãos Karamazóv

Leio em Nos Ombros dos Gigantes (Ed. Record), de Umberto Eco, ensaio sobre a necessidade de os filhos “matarem” os pais. No sentido simbólico, claro. Tema psicanalítico por certo, porém bastante comum na história das ideias, das quais cinema e crítica fazem parte.

Evocando casos desde a Antiguidade, Eco vê uma constante digna de nota, que gostaria de sublinhar:

“Em todos os casos que citei, fica claro, contudo que todo ato de inovação e contestação dos pais acaba recorrendo sempre a um antepassado, que serve de referência e é reconhecido como melhor que o pai que se tenta matar. Os poetae novi contestavam a tradição latina referindo-se aos líricos gregos; os poetas hespéricos e Virgílio Gramático criavam seus híbridos linguísticos tomando emprestados étimos celtas, visigodos, helênicos e hebraicos…Dante precisou de um antepassado tão forte quanto Virgílio…e a Lógica Modernorum era moderna graças à descoberta do Aristóteles perdido” (p. 20).

Ao ler estas linhas, lembrei de dois casos clássicos em momentos de ruptura da história do cinema.

Ao lançarem a nouvelle vague, os “jovens turcos” (Truffaut & Cia) quiseram enterrar o cinema francês de “qualité” (veja em A arte da crítica 3). Porém, preservavam Jean Renoir como a figura do passado a ser retida como referência. Nas palavras de Eco, Renoir era o antepassado mais sábio do que o pai que se queria matar.

No Brasil, o Cinema Novo, Glauber Rocha em particular, ataca o cinema europeizado da Vera Cruz (o “cinema de qualité” brasileiro), e elege Humberto Mauro como a figura do passado que se deve cultuar. Mauro é o antepassado mais sábio que o pai que se deseja matar.

Mais adiante, no mesmo texto, Eco retoma o fio da meada: “O elogio dos antiquíssimos é o gesto por meio do qual os inovadores vão buscar em uma tradição que os pais esqueceram as razões para sua própria inovação”.

Em O Cinema Brasileiro Moderno, Ismail Xavier destaca a posição de Glauber Rocha que, avant la lettre, entra em sintonia com a de Eco:

“Em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, livro publicado em 1963, Glauber Rocha faz uma avaliação do passado para legitimar o Cinema Novo no presente, esclarecer seus princípios. Como acontece com os líderes de rupturas, ele age como um inventor de tradições. O novo movimento teria seus antecedentes, responde a uma história. Há Humberto Mauro, à distância, com seu cinema de poucos recursos feito em Cataguases nos anos 20; há Nelson Pereira dos Santos, que inicia, nos anos 50, o cinema moderno no Brasil a partir do diálogo com o neorrealismo italiano e com escritores brasileiros. Ao lado de tais experiências positivas, há a falência da Vera Cruz em meados dos anos 50, sinal do esgotamento das tentativas industriais. Há mitos a destronar, batalhas a travar em defesa do ‘cinema de autor’ que Glauber qualifica de revolucionário, contra o dos ‘artesãos’, funcionários do comércio. O texto é de combate e deve abrir caminho entre os contemporâneos a machadadas, discriminar” (p. 9).

São embates culturais sangrentos, escaramuças fortes no plano das ideias, num momento em que filmes se contrapõem a filmes e textos se batem com textos de forma impiedosa. A história das ideias é uma história de conflitos, não a de gerações que se sucedem pacificamente umas às outras.

Um crítico poderia ignorar todo esse rumor em torno dos filmes, como se estes falassem por si sós, fossem mônadas isoladas de todo o tumulto que se desenvolve ao seu redor e por sua causa?

Questão complexa. Mas a resposta me parece (provisoriamente) negativa. Voltaremos.

(work in progress. a continuar)