A arte da crítica (3): Truffaut e a política dos autores
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A arte da crítica (3): Truffaut e a política dos autores

Em seus tempos de crítico, o cineasta francês François Truffaut foi o principal formulador de uma ideia polêmica e fértil sobre a arte de analisar filmes, a política dos autores

Luiz Zanin Oricchio

09 de março de 2019 | 11h09

François Truffaut

 

Na maneira errática em que esta Arte da Crítica segue seu caminho, dando voltas, indo para frente e para trás, prevejo que falarei de François Truffaut e da política dos autores várias vezes.

Há motivos. Truffaut, vocês sabem, serviu dos dois lados do balcão. Começou como jovem crítico e, em seguida, se tornou um dos principais diretores da nouvelle vague.

Ele mesmo conta essa história de modo engraçado. Crítico feroz e indócil, esteve como jornalista no Festival de Cannes e, diante de sua cobertura, os organizadores escreveram à sua revista pedindo que mandassem outro crítico, menos implacável, para o festival do ano seguinte. Ora, um ano depois Truffaut estava em Cannes, já não como crítico mas como o diretor de Os Incompreendidos (Les Quatre-cents coups), filme sobre a infância que o tornaria famoso. E também o ator Jean-Pierre Léaud, que interpreta Antoine Doinel, alter ego do diretor. A “série” Doinel continuaria em vários e deliciosos filmes, sempre com Léaud. 

Jean-Pierre Léaud, como Antoine Doinel

O Truffaut crítico deixou sua marca na história da escrita de cinema. Suas peripécias são bem conhecidas, e a maior delas atende pelo nome de Une Certaine Tendance du Cinéma Français, artigo demolidor do “cinéma de qualité” francês, segundo ele literário, sem imaginação e cheirando a mofo. Foi uma dinamite. Mais tarde, Truffaut admitiu que exagerava um pouco, mas que o radicalismo é traço inevitável das revoluções, mesmo das revoluções culturais. Era preciso destruir, queimar casas e salgar o chão, cortar cabeças, e não deixar pedra sobre pedra para abrir caminho ao novo cinema, que viria com a nouvelle vague.

A política dos autores teve maior durabilidade que esse jacobinismo passageiro. Vale até hoje, pelo menos para muitos críticos que por ela se orientam.   

Num dos volumes (são dois) de La Politica degli Autori, que comprei numa estante de livros durante um Festival de Veneza,  Antoine de Baecque escreve: “A política dos autores é sem dúvida a ideia crítica mais célebre da história do cinema”. Baecque, para localizar, foi diretor de redação dos Cahiers du Cinéma, biógrafo de Truffaut e autor de um belíssimo livro chamado Cinefilia.

Algumas linhas mais adiante, Baecque admite que “a expressão tornou-se célebre, mas conserva a sua ambiguidade”. Lembra que Truffaut foi o primeiro a introduzir o conceito, entre 1954 e 1955. Forjou-o como arma contra a crítica sua contemporânea e contra o cinema francês então dominante. É uma ferramenta de combate. Que visa, grosso modo, dividir os cineastas entre aqueles que são autores e os que não o são. Quem são os “autores”? Lang, Buñuel, Hitchcock, Renoir, Ophuls, Bergman, Mizoguchi, Hawks, Nick Ray.

Como distinguir uns dos outros? Baecque: “Os textos fundadores dos Cahiers du Cinéma associam de modo irreversível a admiração por um cineasta e a compreensão do seu universo formal, pessoal, em suma, a sua visão de mundo. O primeiro adquire o título de “autor”, a segunda toma o nome de “mise-en-scène”. (p. 6).

A defesa desse ponto de vista baseia-se na primazia absoluta da forma: “A moral de um filme (o seu conteúdo, a sua mensagem política, se quisermos) está toda contida na forma cinematográfica exibida pelo autor (enquadramento, movimento de câmera, montagem – isto é, a mise-en-scène). Se trata de fato de desvincular o juízo e a escrita sobre o filme de qualquer noção de conteúdo (não existe mais uma hierarquia entre assuntos grandes ou pequenos, mensagens boas ou más) e de forma (as condições econômicas, políticas, técnicas, histórico de produção e realização do filme são soberbamente ignoradas pela política dos autores). O que faz um grande filme, o que impõe um grande tema, o que transmite uma mensagem, é a verdade da mise-en-scène”.  

Dessa postura, decorriam algumas atitudes, a principal, a de que a obra de um “autor” teria de ser vista em seu conjunto, com momentos de expressão daquela visão de mundo particular. Um autor não teria maus filmes. Um não-autor, pelo contrário, não teria filmes dignos de interesse.

Por outro lado, a obra, o filme, deveria ser analisado sem qualquer relação com seu contexto – econômico, político, histórico, técnico, etc. Contexto do qual, lembra Baecque, nascem todos os filmes, inclusive os de autor.

Muito já se escreveu sobre isso. Prefiro dar a palavra a Truffaut, num texto mais generalista, prefácio do seu belo livro Os Filmes da Minha Vida. Este prefácio se intitula, de modo significativo, Com que Sonham os Críticos? e é um resumo da trajetória do próprio Truffaut, da cinefilia de infância e juventude ao exercício da crítica e, enfim, o início de carreira de diretor.

Destaco dois pontos desse texto bastante rico. Neste primeiro, ele ataca a hierarquia dos temas:

“Continuo considerando absurda e execrável a hierarquia de gêneros. Quando Hitchcock filma Psicose – a história de uma ladra ocasional, em fuga, morta a facadas no chuveiro pelo proprietário de um motel que empalhou o cadáver da mãe morta – quase todos os críticos (em sua época) concordam em julgar o tema trivial. No mesmo ano, influenciado por Kurosawa, Ingmar Bergman filma exatamente o mesmo tema (A Fonte da Donzela), mas situando-o na Suécia do século 14; todos ficam extasiados e lhe concedem o Oscar de melhor filme estrangeiro. Longe de mim querer subestimar tal recompensa, insisto apenas no fato de tratar-se do mesmo tema (na realidade, uma transposição mais ou menos consciente do famoso conto de Charles Perrault, Chapeuzinho Vermelho”.  

Em seguida, Truffaut ataca os críticos de enredos:

“A principal censura que se pode fazer a alguns críticos – em algumas críticas – é raramente falarem de cinema. É preciso saber que o roteiro de um filme não é o filme. É preciso igualmente admitir que nem todos os filmes são psicológicos. O crítico deve meditar sobre esta afirmação de Jean Renoir: ‘Toda grande arte é abstrata’; deve tomar consciência da forma e perceber que certos artistas, como Dreyer ou Von Sternberg, por exemplo, não procuram aparentar”.

Bem, levantei essas questões porque, apesar de nascida e datada em meados dos anos 1950, a política dos autores traz reflexos sobre a crítica até hoje. Muitos críticos adotam a “política” com o fervor de crentes, ou seja, de forma, com perdão do termo, acrítica.

Esquecem que, mesmo a figura tutelar de André Bazin, guru de Truffaut e criador dos Cahiers, punha em dúvida pontos fundamentais da “política” como o elogio sistemático de um cineasta e, como escreve Baecque,  “o paradoxo que um filme menor de um autor fosse mais interessante que a obra única de um cineasta desconhecido”.

O próprio Truffaut transcreve trechos de uma conversa mantida com Bazin: “Você não está vendo que todos os filmes de Hawks são bons e todos os de Huston são ruins?”. Admite que se trata de uma forma brutal que ele havia refinado um pouco com o tempo: “O pior filme de Hawks é mais interessante que o melhor filme de Huston”. Mesmo assim…

Como se vê, há um fundo de fé, e fé intransigente, na política dos autores. Religiões, sabemos, podem conduzir ao sectarismo e a outros males da civilização.

No entanto, apesar desse jacobinismo um tanto insensato, a “política” traz ao crítico ferramentas importantes: 1) força-o a se aproximar do material fílmico, da linguagem do cinema; 2) por consequência, relativiza a divisão artificial entre temas nobres e menos nobres; 3) estimula o estudo do conjunto da obra de alguns cineastas.

Voltarei ao assunto. Mesmo porque houve, ano passado, o relançamento de um livro importante, de Jean-Claude Bernardet, O Autor, no qual ele relativiza essa figura tão cara à política dos autores. A obra original é dos anos 1990. Jean-Claude a reedita, tal e qual, porém acrescida de comentários escritos agora. E concede a co-autoria do livro a um jovem crítico, Francis Vogner dos Reis, que dialoga, e às vezes se opõe, às ideias de Jean-Claude em torno da falência da noção de autor (e portanto da “política).

Voltarei a isso. Várias vezes, desconfio.

(work in progress. a continuar)