A arte da crítica (21): a obra em si é suficiente? O caso de ‘Cajuína’
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A arte da crítica (21): a obra em si é suficiente? O caso de ‘Cajuína’

Luiz Zanin Oricchio

17 de agosto de 2020 | 12h53

 

Neste texto gostaria de discutir uma velha questão da crítica (e não apenas da crítica de cinema): a obra em si basta-se para a análise ou seu contexto ajuda na compreensão e mesmo na fruição? O tema é polêmico e polarizado. 

Deve-se reconhecer que há bons argumentos de um lado como de outro. Para uns, deveríamos olhar para a obra sem qualquer consideração para com seu “meio ambiente”. A obra é soberana e encontramos em sua estrutura tudo o que precisamos. Não temos necessidade e não devemos levar em conta o momento histórico e nem mesmo a biografia do seu autor. Suas circunstâncias, se tiverem importância, deverão estar embutidas na própria forma para funcionarem de maneira estética. Os que pensam o contrário, apontam para o enriquecimento de compreensão que ocorre quando o contexto (histórico, político, pessoal do autor, etc.) é levado em consideração.

Em resumo: uma corrente não leva em consideração nada que seja exterior à obra. A outra entende que informações exteriores à obra podem ajudar em sua compreensão e enriquecer a análise.  

Ao invés de me decidir de forma teórica por um lado ou por outro, vou evocar uma experiência pessoal diante de uma obra em particular. Refiro-me à canção Cajuína, de Caetano Veloso.

Sempre gostei muito dessa música. Me parece uma pequena joia da música brasileira, talvez uma obra-prima. Transcrevo abaixo a letra:  

Existirmos: a que será que se destina?

Pois quando tu me deste a rosa pequenina

Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina

Apenas a matéria vida era tão fina

E éramos olharmo-nos intacta retina

A cajuína cristalina em Teresina

Ouvi a canção dezenas de vezes, talvez. Sempre achei a música extraordinária, em sua simplicidade. Um pequeno xote em tom menor, em nota melancólica. Oito versos, finamente talhados. Uma obra de grande sofisticação. Ouçam essa versão: 

A letra me parecia notável, embora enigmática em alguns pontos. Claro, o tom geral era de ordem metafísica, indagando sobre o sentido da nossa existência.  “Existirmos: a que será que se destina?”, e passando pela fragilidade da nossa experiência através deste verso notável: “Apenas a matéria viva era tão fina”. 

Mas e o resto? Qual a relação com o refrigerante de caju, deliciosa bebida que conheci no Nordeste e que, portanto, remete àquela região, na qual fica a terra natal do próprio compositor? O significa essa “rosa pequenina” lá evocada? Mistérios. E poderia continuar assim pelo resto da vida porque nunca fiz lá muita questão de desvendá-lo, o que talvez fosse muito fácil. Mas o mistério também tem seus encantos. 

Acontece que um dia caiu na rede um vídeo meio antigo, do Programa Livre, de Serginho Groisman, no qual uma adolescente pergunta a Caetano Veloso sobre essa canção e ele então explica como a compôs. Acontece que a garota de 15 anos era a futura cineasta Petra Costa, que seria mais tarde autora de filmes como Elena e Democracia em Vertigem

Recentemente, a explicação de Caetano apareceu no site de Moreno, seu filho, que transcrevo abaixo: 

 

” … No dia em que ele Torquato Neto se matou, eu estava recebendo Chico Buarque em Salvador para fazermos aquele show que virou disco famoso. Torquato tinha se aproximado muito de Chico, logo antes do tropicalismo: entre 1966 e 1967. A ponto de estar mais freqüentemente com Chico do que comigo. Chico eu eu recebemos a notícia quando íamos sair para o Teatro Castro Alves. Ficamos abalados e falamos sobre isso. E sobre Torquato ter estado longe e mal. Mas eu não chorei. Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental. Quando, anos depois, encontrei Dr. Eli [pai de Torquato] que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durantes horas, sem parar. Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.”

 

Com essa revelação, tudo se esclarece. E, confesso, quando soube da história, pela boca de Caetano, no vídeo do programa do Serginho Groisman, senti uma emoção profunda. Era como se uma luz adicional se acendesse em mim. Para além daquela que já iluminava Cajuína, sem que eu nada conhecesse do contexto de composição da obra. A emoção, agora com consciência do contexto, foi de outra ordem. Ampliou-se. E veio acompanhada do conhecimento da comoção causada pelo suicídio daquele jovem Torquato Neto, em 1972, sobre o espírito de Caetano Veloso. Que, como ele diz, num primeiro momento endureceu-se para, apenas posteriormente, e na presença do pai do artista morto, completar-se em catarse e luto. E, por fim, se convertesse em sublimação sob a forma da criação artística, isto é, da composição de Cajuína

Essa pequena história abre espaço para uma série de questões, que também enumero como simples exemplos para reflexão: 

Acrescenta algo ao crítico saber que Cidadão Kane é baseado na vida do magnata das comunicações William Randolph Hearst? 

É interessante saber das repercussões políticas nos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã quando analisamos uma obra como Apocalipse Now

É útil para o crítico considerar Terra em Transe como um mergulho nas entranhas do país sob a forma de uma espécie de reflexão desesperada sobre o golpe de 1964 e pasmo pela ausência de reação por parte do campo progressista? 

É isso. 

Poderíamos dizer, parafraseando Ortega y Gasset que a obra é ela e mais a sua circunstância? 

(Work in progress. Continua)

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