A arte da crítica (2). As palavras e as coisas
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A arte da crítica (2). As palavras e as coisas

Dois críticos saem juntos após uma sessão de cinema. Um pergunta ao outro: “E aí, gostou do filme?” Resposta: “Não sei, não escrevi ainda.”

Luiz Zanin Oricchio

26 de fevereiro de 2019 | 11h59

 

A anedota é bem conhecida em nosso meio.

Dois críticos saem juntos após uma sessão de cinema.

Um pergunta ao outro: “E aí, gostou do filme?”

Resposta: “Não sei, não escrevi ainda.”

Como quase toda anedota, esta tira sua graça de um certo exagero. Evidente que o crítico “sabe” se gostou ou não, de acordo com as sensações e pensamentos que teve ao assistir a obra. O que ele não tem, antes de escrever, é a forma desse gostar, não gostar ou gostar mais ou menos.

Pelo trabalho com a palavra ele construirá esse pequeno ensaio que se chama crítica, no qual tentará demonstrar que seu gosto pode ser pessoal e subjetivo, mas nada tem de arbitrário.

Mas as coisas são mais complexas um pouco. Todo mundo que escreve sabe que as ideias prévias vão sendo moldadas e modificadas no próprio ato da escrita. Não é raro começarmos a escrever sobre determinada obra e, no processo, descobrimos que gostamos dela mais do que pensamos a princípio. Ou menos. Ou gostamos ou desgostamos por razões que antes não suspeitávamos.

É que a escrita é pensamento em movimento. Ela não “traduz” um sentimento prévio que está em nós, mas o constrói à medida que vai se fazendo.

Além do mais, se até agora usamos e abusamos do verbo “gostar”, sabemos que uma crítica digna deste nome vai além das questões de gosto pessoal. Não importa tanto o fato de eu gostar ou não de uma obra, mas a minha capacidade de entendê-la (ou não). E de transformar esse entendimento na linguagem chamada crítica.

Daí chegarmos a essa fórmula mínima, que se parece a um truísmo: a crítica como ato de escrita.

Mas será assim mesmo? Ainda mais num tempo em que proliferam comentários sobre filmes nas mais diversas plataformas – rádio, TV, podcasts, youtube, etc. Serão menos crítica por causa disso?

Acredito que não. O que temos, em qualquer um dos casos, é a relação entre a obra e a palavra. E esta é problemática em qualquer circunstância.

Lembro, aqui, um pequeno episódio pessoal. Estávamos numa mesa de debate, Jean-Claude Bernardet e eu. À sua maneira franco-irônica, Jean-Claude se referindo a uma crítica minha, disse algo assim:

“Gostei demais do seu texto, muito culto e enriquecedor. Só não consegui ver muito bem a relação entre ele e o filme que você comentava”.

Bingo!

Nem sempre, aliás como muita frequência, não conseguimos estabelecer essa conexão entre o que escrevemos e a obra. Por exemplo, podemos escrever muito bem sobre as sensações e emoções que a obra nos desperta sem que falemos sobre a obra em si mesma. Um filme, qualquer um, pode nos despertar uma certa nostalgia, uma emoção saudosa (agradável como uma leve coceira) e nem por isso estaremos escrevendo sobre ele. Escrevemos sobre a nossa emoção, sobre a nossa nostalgia de um tempo perdido, etc. É um ato mais de autobiografia do que de crítica. 

De maneira que é preciso encontrar a boa distância para escrever sobre a obra, o filme, em nosso caso. Não podemos (não devemos, eu creio) ignorar o que ele nos desperta em termos de sensações, emoções e recordações. A crítica é sempre autoral, sempre fala do crítico, ao menos em parte. Toda crítica é escrita na primeira pessoa do singular, embora às vezes a oculte por pudor jornalístico. 

Mas não podemos nos contentar com isso e nem nos tornarmos reféns de sentimentos despertados pela obra. No caso do cinema, precisamos nos defrontar com o material audiovisual com que essa obra é construída, assim com um crítico literário deve se deparar com as palavras e frases do escritor, um crítico de artes plásticas com o material pictórico e o crítico musical com a massa sonora criada pelo compositor.

Tudo isso é mais fácil falar que fazer. No caso da crítica literária, pode-se dizer que ela utiliza o mesmo “material de construção” da obra. Mas e nos outros casos? Usamos palavras para falar de obras audiovisuais, palavras para falar de pinturas, palavras para falar de música (a mais abstrata das artes, segundo Hegel). Tudo é palavra. Isso cria uma questão, digamos, epistemológica, já que usamos de um conjunto de signos para abordar outro conjunto, de ordem diferente? Uma operação que alguém já batizou de “transemiótica”?

Qual a relação entre “as palavras e as coisas”?, para usar o título de um dos grandes livros de Michel Foucault que, aliás, usou Jorge Luis Borges como fonte de inspiração para essa meditação acerca dos limites e alcances da narrativa em diversas épocas?

São questões espinhosas, porém estimulantes, que um crítico, digno deste nome, precisa enfrentar.

(work in progress. a continuar)

 

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