A arte da crítica (19): Buñuel, que amei antes de conhecer
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A arte da crítica (19): Buñuel, que amei antes de conhecer

Luiz Zanin Oricchio

14 de maio de 2020 | 14h57

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Uma pequena história introdutória. Anos 1960, eu fazia o ginásio no Instituto de Educação Caetano de Campos, na Praça da República. Morava na Aclimação, pegava um ônibus que me deixava na Praça da Sé e ia a pé até lá. Quase na chegada do colégio havia livrarias e algumas bancas de livros usados na calçada. Gostava de dar uma olhada antes de entrar para as aulas. Um dia, um livro me chamou a atenção e comprei-o. Era sobre cinema, sobre um cineasta de quem nunca ouvira falar, escrita por um autor para mim desconhecido. Devia custar uma bagatela, senão não o teria comprado, pois dinheiro no bolso era raro, mais que escasso. 

Foi uma revelação, dessas que acontecem quando a pessoa é muito jovem, inexperiente e ignorante. Comecei a ler o livro e me apaixonei pelos filmes do diretor. O “amour fou”, a contestação à moral burguesa, o poder do inconsciente – tudo isso estava lá naquelas páginas e ia ao encontro de minhas vagas aspirações. 

Aspirações, diga-se, que eram apenas uma massa informe, uma difusa impressão de mal-estar no mundo, em busca de uma forma concreta para vesti-las. Ela veio através da revelação das obras de Luis Buñuel, tão bem descritas neste livro de Ado Kyrou

Adotei-o como livro de cabeceira e o lia todo dia, antes de dormir. Muita coisa não compreendia, mas isso não tinha importância. Não é preciso compreender tudo de imediato, mas valer-se dessa impressão estimulante, que renderá frutos apenas mais adiante. 

Farei agora uma digressão sobre esse subtema. 

Lembro de uma passagem de Doutor Fausto, obra-prima de Thomas Mann, em que o narrador descreve as aulas de um formidável professor de música, Wendell Kretzschmar. Este era capaz de discorrer durante uma hora, para uma plateia minguada, sobre um tema tão especializado como “por que Beethoven não escreveu um terceiro movimento para a Sonata para Piano Op. 111?”

Continuando sua descrição das aulas de Kretzschmar, o narrador de Doutor Fausto fala de outro tema, especialmente complicado, a questão da fuga em Beethoven. E faz, ele próprio, essa digressão, em modo explicativo: 

“Interrompo o meu relato tão-somente para chamar a atenção do leitor ao fato de que o palestrante nesse momento tratava de coisas, assuntos e relação artísticas que ainda não haviam surgido no nosso horizonte e mal se tornavam visíveis à beira do mesmo, quais sombras, em virtude da fala sempre periclitante de Kretzschmar (o palestrante é brilhante, porém gago. Nota minha). Não tínhamos capacidade para conferir o acerto de suas palavras, a não ser através de seus próprios comentários, que acompanhavam as performances pianísticas. Escutávamos tudo isso com a vagamente excitada imaginação de crianças que ouvem contos de fadas, sem entendê-los, mas cujos tenros espíritos apesar disso se sentem enriquecidos e estimulados de um modo singular, sonhador, intuitivo, pelo que se lhes oferece”. (Doutor Fausto, Thomas Mann, tradução de Herbert Caro). 

Fecho a digressão. Apenas acrescento que acredito piamente nesse tipo de ensinamento, que, ao invés de baratear seu tema para plateias supostamente incultas, passa por cima de vastas áreas de ignorância do público, e deixa em seu ouvinte (ou leitor, ou espectador) ganas de preencher esses buracos de saber, para, no futuro, criar, ou pensar, por conta própria.

Em todo caso, cada um reage à sua própria maneira, mas foi o efeito que esse livro de Kyrou teve sobre mim. Devorei-o na certeza de que havia lá algo de muito precioso, e que me dizia muito respeito, ainda que eu não pudesse entendê-lo por completo. Mesmo porque o texto era apoiado no comentário de filmes que eu desconhecia. 

Resta dizer que, quando comecei por fim a ver os filmes de Buñuel foi como o reencontro com algo já conhecido – pela leitura de Kyrou. 

Talvez mais tarde, eu tenha me libertado dessa primeira impressão. Vi e revi várias vezes praticamente todos os filmes de Buñuel, inclusive os da sua fase mexicana, e pude formar uma ideia de conjunto, com interpretação própria (mas, no limite, existe “interpretação própria, ou carrega sempre os lastros de uma cultura adquirida?). 

Para mim, é um dos grandes autores de todos os tempos e sempre me espanto que dois ou três de seus filmes não figurem nas primeiras colocações das famosas listas de “melhores de todos os tempos”. A saber, Viridiana, Os Esquecidos, O Anjo Exterminador, Via Láctea, Esse Obscuro Objeto do Desejo, etc, e etc. A lista é longa. 

Quanto ao livro, acabei por perdê-lo em minha vida errante. Mas, há pouco, comprei outro exemplar no sebo digital e o reli. Ou devo dizer que o li pela primeira vez? Me agradou verificar que a edição brasileira é de 1966, da Editora Civilização Brasileira e, provavelmente, nunca foi reeditado. Também gostei que a capa tenha vindo um pouco rasgada, cicatriz da sua antiguidade.  

A tradução é de José Sanz, que, obviamente, eu não sabia naquela época de quem se tratava. Mas hoje sei que foi um crítico famoso no Rio de Janeiro, pai do nosso amigo, o cineasta Sérgio Sanz, também já falecido. A apresentação do livro é de Glauber Rocha (seria apenas na edição brasileira?). 

O livro é bastante amplo em sua distribuição de matérias. Contém uma pequena biografia de Buñuel e depois um acompanhamento filme a  filme, até O Anjo Exterminador. Depois, textos escolhidos do próprio Buñuel, entrevistas, estudos (inclusive um de Otávio Paz e outro de Benjamin Péret) e uma seleta de críticas (André Bazin, Alex Viany e Jean-Claude Bernardet, entre outros). 

Pesquiso sobre Kyrou e descubro que é grego, nascido em 1922 e emigrou para a França depois da Segunda Guerra Mundial. Cortou seu prenome de Adonis para Ado e foi atuante no meio crítico francês. Amigo de Luis Buñuel, chegou a filmar um roteiro escrito pelo bruxo espanhol, chamado Le Moine. Morreu em 1985, ano em que sua biografia de Buñuel chegava à 16ª edição, segundo informa a Britannica. Será este mesmo livro de que eu falo ou teria ele escrito uma biografia completa de Buñuel, que morreu em 1980? Não sei.  

Ao vermos um filme, o vemos (também) a partir dos livros que lemos. Ou não?

(work in progress. a continuar)

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