A arte da crítica (18): Presença de Brecht
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A arte da crítica (18): Presença de Brecht

Luiz Zanin Oricchio

28 de abril de 2020 | 13h57

A figura de Bertolt Brecht (1898-1956) andou no radar nesses dias de recolhimento e pandemia. 

Bem, Brecht é, ou deveria ser, um nome sempre presente entre quem curte e/ou estuda artes. Mas, de vez em quando, entra em recesso, por assim dizer. Descansa à sombra. 

Lembrei-me dele ao ouvir o ótimo podcast da revista literária 451, em que o editor Paulo Werneck debate com o tradutor de uma coletânea de poesias de Bertolt, André Vallias, e o crítico literário Kelvin Falcão Klein. Ouça aqui, no Spotfy.

A seguir, fui levado ao filme, Brecht, de Heinrich Breoler, apresentado ano passado no Festival de Cinema de Berlim. 

Gostei, com restrições. Gasta-se muito tempo com a vida pessoal de Brecht, mulherengo contumaz. E pouco, muito pouco, com sua obra e pensamento. 

Claro, um docudrama (entremeado de excertos documentais, um deles com Brecht depondo no Comitê de Atividades Antiamericanas) não pode se resumir a uma exposição de teses. Mas fica melhor quando mescla biografia e ideias. Afinal, Brecht passou à história como um escritor e dramaturgo de pensamento inovador e poderoso, influente até hoje, e não como vulgar Dom Juan de subúrbio. Fosse isso, não estaríamos nos ocupando dele até agora. 

Bem, trago esse Brecht à nossa arte da crítica porque me parece que nenhum estudo sério sobre a crítica cinematográfica pode se dispensar de um exame sobre o seu pensamento e sua influência no cinema. E, por que não dizer, de sua importância para nós, críticos. 

Não cabe aqui recordar as inúmeras adaptações de suas obras para o cinema, a começar pelo clássico A Ópera dos Três Vinténs, vertida para a tela por Pabst. Entre nós, Alberto Cavalcanti dirigiu O Sr. Puntilla e seu criado Matti, Sérgio Silva tirou seu Anahy de las Misiones de Mãe Coragem e Helena Ignez dirigiu A Canção de Baal, reinvenção da obra de juventude do dramaturgo. 

Em seu Introdução à Teoria do Cinema, Robert Stam dedica um breve capítulo ao dramaturgo, “A Presença de Brecht”. Bem sucinto, enumera os avanços devidos a Brecht bem com suas limitações. 

Entre os primeiros: a criação de um espectador ativo, rejeição do voyeurismo e da convenção da quarta parede, rejeição da dicotomia entretenimento-educação, crítica da catarse aristotélica, arte como chamamento à práxis, a interpretação distanciada, etc. 

Entre as limitações, no entender de Stam: o cientificismo, racionalismo, puritanismo (no sentido do espectador que deve “trabalhar” na produção do sentido), machismo, classe-centrismo – privilégio da opressão social de classe em detrimento de outros, como raça, gênero, sexualidade e nação. 

Apenas uma passagem no filme ilustra o pensamento de Brecht. É quando sua mulher, Helene Weigel, vai às lágrimas durante um ensaio e ele grita com ela: “Não chore! Esse é o momento em que ela toma consciência”. É pouco, para um filme de mais de três horas. 

De qualquer forma, a influência sobre a crítica é considerável. Basta citar que em 1960 os Cahiers du Cinéma dedicaram um número especial a Brecht. Stam cita o crítico Bernard Dort no ensaio “Towards a brechtian criticism of the cinema”, no qual afirma que “uma crítica brechtiana traria a política ao centro das discussões”. 

As ideias de Brecht influenciaram pensadores do cinema como Jean-Louis Comolli, Peter Wollen e Colin MacCabe. Assim como cineastas como Welles, Godard, Resnais, Duras, Glauber Rocha, Straub-Huillet, Fasbinder, Alea, Tanner, Oshima, etc. 

Brecht é importante demais para ser desconhecido e suas propostas aparecem em cenas tornadas marcantes na história do cinema: o olhar de Ingrid Thulin em Monika e o Desejo, a sequência final de La Dolce Vita e de E La Nave Va, a “dança” de Corisco ferido por Antônio das Mortes em Deus e o Diabo na Terra do Sol, a abertura de O Desprezo, com a câmera dirigindo-se ao espectador. 

Tudo isso é Brecht. Convém reconhecê-lo. 

(work in progress. a continuar)

  

Tudo o que sabemos sobre:

A Arte da CríticaBertolt Brecht

Tendências: