A arte da crítica (17): a sabedoria de não lacrar
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A arte da crítica (17): a sabedoria de não lacrar

Luiz Zanin Oricchio

28 de janeiro de 2020 | 18h16

Emiliano Zapata

Mês passado li no Estado um artigo muito interessante da colunista de economia Monica de Bolle, A sanha de querer concluir (18/12/2019)

A coluna falava da pressão contemporânea em chegar a conclusões rápidas – e, por isso, equivocadas. 

O centro do texto apoiava-se num artigo de Albert O. Hirschman, The Search for paradigms as a hindrance to understanding (A busca de paradigmas como obstáculo à compreensão). Segundo de Bolle, trata-se de “crítica feroz à tendência das respostas rápidas para fenômenos complexos – no caso A Revolução Mexicana ou a violência na Colômbia”. 

Fui atrás do artigo de Hirschman na internet. Não foi fácil, mas o encontrei num site acadêmico. De fato, é texto fascinante e, em sua base, defende o tempo necessário de estudo de um problema para que não tiremos conclusões precipitadas – e quase invariavelmente erradas. E também a abertura de conclusões. 

Li o artigo de Hirschman com grande interesse, em especial na parte em que ele confronta dois livros. Um deles, precipitado e bastante focado nas ideias prévias do seu autor sobre o que seriam as causas da violência na Colômbia (Patterns of Conflict in Colombia, de James L. Payne). O outro, mais “modesto” (apenas em aparência), cuidadoso em suas observações e aberto em suas conclusões a respeito de Zapata e a Revolução Mexicana. Lendo Hirschman, dei um pulo na cadeira, pois achava que tinha comprado esse livro em minha última viagem ao México. E, de fato, lá estava ele, à espera, na estante dos “ainda não-lidos”: Zapata y la Revolución Mexicana, de John Womack Jr. 

Não vou aqui fazer uma paráfrase de Hirschman ou de Womack, apenas me referir a um trecho dramático do livro – e da história mexicana. Quando Zapata é assassinado em 1919, é substituído por seu até então secretário, Gilardo Maganã. Hábil negociador, Magaña, “lutando e negociando alternativamente e respaldando Obregón no momento oportuno logram converter-se de proscritos que eram em administradores locais e membros de uma coalisão nacional”. 

“Assim terminou o ano de 1920, em paz, com a reforma agrária populista reconhecida como política nacional, e com o movimento zapatista estabelecido na política de estado de Morelos.” (Womack)

Ao longo desse texto vibrante, Hirschman comenta, Womack trabalha uma hipótese íntima, que nunca é formulada de maneira explícita ao leitor: talvez o sucesso relativo da revolução de Morelos se deva a esse comando em dois tempos: primeiro, com o radical Zapata, em seguida com o negociador Magaña. 

Sugere, mas não afirma ou impõe a hipótese, porque é ciente da complexidade do processo histórico, da interveniência do acaso, etc, que se não tivesse sido assim, talvez a revolta terminasse sem os benefícios que trouxe aos camponeses. 

O que serve para a economia ou a história serve também para a crítica de cinema. Quantas vezes, ao escrever sobre um filme, não “lacramos” alguma conclusão que nos parece tão óbvia que nenhuma outra alternativa soa como possível? 

E, no entanto, tanto como a história dos homens, uma obra parece aberta a inúmeras interpretações. A diversos possíveis. 

Enriquecemos a obra quando lhe concedemos a possibilidade dessa abertura. 

Lacrar é diminuir, cristalizar um sentido fechado e bloqueá-lo a outras possibilidades. É um signo autoritário do nosso tempo. 

(Work in progress. Continua)

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