A arte da crítica (16): O simples e o complexo
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A arte da crítica (16): O simples e o complexo

Luiz Zanin Oricchio

17 de novembro de 2019 | 14h55

Diz Khalil Gibran que a simplicidade é o último degrau da sabedoria. Pode ser. Mas há que distinguir a simplicidade do simplismo. Lembro, nos meus tempos de estudante, de um professor (de bioquímica) dizendo que, entre duas soluções para um problema complexo, devemos optar pela mais simples – e portanto a mais elegante. Há uma estética da ciência e, não por acaso, os teoremas terminam por uma refinada citação latina, QED, Quod Erat Demonstrandum. O nosso popular CQD, Como Queríamos Demonstrar. 

Bem, voltemos à simplicidade, e agora no âmbito da crítica. O francês Jean-Michel Frodon, ex-diretor dos Cahiers du Cinéma e crítico brilhante (leiam-no na Slate francesa), deu uma longa entrevista à revista Teorema quando esteve em Porto Alegre. Na entrevista, várias respostas complexas e matizadas. Mas reparem na última questão, e na resposta a ela dada por Frodon: 

  • Quais as qualidades de um bom crítico?
  • Curiosidade. Gostar de cinema. Gostar de escrever. Isso é tudo!

Não é espantoso? Mas deixemos Frodon de lado, por enquanto. 

Conversando outro dia com Ismail Xavier, falávamos da intuição, ou do insight, se se quiser. Ismail é talvez o principal ensaísta de cinema contemporâneo no Brasil. São dele livros difíceis e incontornáveis como Sertão Mar e Alegorias do Subdesenvolvimento. Têm de ser lidos com a máxima atenção, pois são obras de um scholar sofisticado, que não cede uma vírgula em relação à complexidade dos seus objetos de estudo. 

No entanto, em conversa comigo, Ismail disse que uma pessoa pode ter uma tremenda bagagem teórica, saber tudo de cinema, ter visto todos os filmes e conhecer a fundo a história dessa arte e, mesmo assim, não ser um bom crítico. Se não conseguir sacar um detalhe de novo no filme que vê, se for incapaz de propor um ponto de vista inusitado que, pela originalidade, ilumine a obra sob uma luz nova, nada feito. Toda erudição será vã. 

É bem possível que existam pessoas com essa qualidade inata, de ir ao ponto sem grandes mediações. Picasso dizia “Je ne cherche pas, je trouve”. Eu não busco, encontro. 

Ouvi, numa divertida conferência de Ziraldo, ele dizer que gente como Pelé, Lula e Chico Anysio eram maus exemplos, porque pareciam ter tudo que precisavam para ser geniais em seus ofícios sem terem estudado, queimado as pestanas em cima de livros e meditado à luz de velas sobre seu trabalho. 

Talvez haja isso em alguns críticos. Mas francamente não os conheço. Todos os que admiro, ou cujo trabalho sinto como de valia, originais, intensos, definidores, foram e são grandes estudiosos da matéria cinematográfica. E não apenas. Não se limitam ao cinema, mas sentem-se interessados em relação à cultura em geral, da literatura à música e, claro, à pintura. Não se trancam em torres de marfim cinematográfica, mas sentem-se parte de um todo histórico e político, como são os casos de Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet e o mestre de todos, Paulo Emílio Sales Gomes

A minha impressão é que essa indispensável fagulha da intuição, os grandes insights, surgem no contexto de uma acumulação muito grande e sistemática de conhecimento sobre o objeto de estudo. É no interior dessa massa físsil que se dá a explosão de uma grande descoberta. E mesmo de uma modesta sacada em relação ao filme novo que acabamos de ver. 

Talvez seja essa necessidade de saber que Frodon chama apenas de “curiosidade”. Ora, se somos curiosos, quer dizer que adoramos saber, que experimentamos prazer na busca do conhecimento. E isso quer dizer que um bom crítico de cinema tem de ser curioso, isto é, deseja saber tudo a respeito de sua paixão, o cinema, mesmo aceitando que a tarefa de tudo saber é, de saída, impossível. E, claro, tem de gostar de escrever porque esta é a sua ferramenta de trabalho e todo artesão precisa amar seu instrumento, ajustá-lo cada dia à sua mão, refiná-lo e refinar-se com ele. Não existe outro meio. 

Mesmo no campo da ciência natural, há casos de acesso intuitivo ao conhecimento. Um dos mais notórios é a decifração da estrutura da molécula de benzeno (C6H6) pelo químico alemão Friedrich August Kekulé Von Stradonitz (1829-1896). Como se arranjariam esses seis átomos de carbono e seis de hidrogênio para formar a molécula de benzeno? Os químicos pensavam em fórmulas abertas e estas nunca encaixavam. Exausto de tanto matutar o problema, Kekulé adormeceu diante da lareira. Sonhou com uma estranha dança de átomos e cobras. Em determinado momento, “viu” uma serpente que mordia o próprio rabo. Ao acordar, percebeu que poderia estar aí a solução para a estrutura do benzeno – pensá-la em forma circular, em hexágono, fechada sobre si mesma. 

 O que teria feito com isso não fosse sua extraordinária sabedoria acumulada? Nada. E provavelmente nem sonharia com átomos e cobras mordendo-se pelo rabo se não estivesse exausto pelo empenho racional em resolver uma questão científica. A intuição é um raio em céu azul. Uma súbita iluminação, que precisa ser desenvolvida, comprovada e discutida. 

Como diz outro sábio, Louis Pasteur: “No campo da observação, o acaso favorece apenas a mente preparada”. 

 

(Work in progress. Continua)

Leia a série completa de  A arte da crítica

Ou na página do Facebook: A arte da crítica

 

Tudo o que sabemos sobre:

A Arte da Crítica

Tendências: