A arte da crítica (15): o que é spoiler?
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A arte da crítica (15): o que é spoiler?

Luiz Zanin Oricchio

17 de outubro de 2019 | 14h03

Cena de ‘Wasp Network’, inspirada no livro ‘Os Últimos Soldados da Guerra Fria’

Confesso que quando comecei a escrever sobre cinema o termo nem existia e ninguém ligava para isso. Spoiler?

Bem, sempre houve o bom senso de não contar o final da história. Em especial se fosse um thriller ou policial. Quem teria o mau gosto, ou o sadismo, de revelar a identidade do criminoso? Seria a mesma coisa de ler um livro de Agatha Christie e atropelar as conclusões de Poirot ou de Miss Marple. 

Mas hoje tudo se tornou mais perigoso. Você pode se tornar um maldito da crítica se revelar inadvertidamente qualquer detalhe da trama. Há leitores mais sensíveis do que outros. Mas é sempre bom tomar cuidado. 

Outro dia fui procurar algum texto sobre já não sei qual filme e caí no inglês The Telegraph, que é muito bom. Então vi que, no site, existem duas versões de crítica. Uma integral, para quem já viu o filme. Outra, chamada spoiler free – livre de spoilers. Isso já é chegar a um grau enorme de sofisticação. E nem sei se é o caso para nós. 

Faz algum tempo aconteceu o seguinte. Um jornalista tanto tentou evitar spoilers a respeito de Wasp Network que incorreu na ira do autor do livro. Fernando Morais, ao ler o texto do colega, nele viu uma indesejada inflexão política. Quem conhece o livro – e o filme – sabe que a verdade dos personagens só se revela mais ou menos na metade da obra. Portanto, é preciso cuidado para não revelá-la e estragar um dos potenciais prazeres do filme (e do livro). O da descoberta.  

Ontem revi o filme de Olivier Assayas na abertura da Mostra e, na saída, encontrei com nosso amigo, o ator Fernando Alves Pinto. Ele não conhecia o livro e via o filme pela primeira vez. Se disse surpreendido pela reviravolta que acontece lá pela metade do filme. Então entendi todo o imbróglio entre o jornalista e o autor do livro. O primeiro ficou cheio de dedos, temeroso de entregar a trama, e o segundo viu aí uma inclinação política do colega. Um mal entendido, em suma.

Essa situação se complica quando se trata de fatos históricos. Por exemplo, que mal há de dizer em um filme sobre Kennedy que o presidente termina assassinado em Dallas? Alguém no mundo ignora isso? No caso de Wasp Network trata-se de um desdobramento da guerra diplomática entre Cuba e Estados Unidos, que teve ampla divulgação na época. E nem faz tanto tempo assim: aconteceu nos primeiros anos da década de 1990. Foi objeto deste magnífico livro de Fernando Morais, intitulado Os Últimos Soldados da Guerra Fria. Minha mulher notou que o subtítulo da obra, estampada na capa, já entrega tudo. Mas o que fazer? Há gente que não conhece o episódio, ou nem era nascida na época, ou não leu o livro. Permanecem em estado de pureza sobre o episódio. 

O que fazer? Confesso que não tenho fórmulas e me oriento apenas pelo bom senso. Os leitores detestam spoilers. Mas também não gostam quando não contamos nada da trama. Sentem-se traídos se fizermos uma análise apenas formal da obra, sem nada falar do conteúdo. Afinal, muita gente se motiva para ver um filme pelo tema. Às vezes vamos pelo diretor, pela atriz ou pelo ator. Mas também nos motivamos pelo gênero, ou pelo assunto. 

Anos de prática me levaram a uma determinada postura. Da trama, procuro servir apenas um aperitivo ao leitor. Lendo, ele vai saber do que se trata, mas não muito. Não matará a fome ao ler a crítica. Se esta for boa, apenas despertará seu apetite. Mesmo assim, ainda que entregando só um pouco do conteúdo, é possível ser acusado de estraga-prazeres por gente mais ranzinza. Ou, por outro lado, podemos ser pichados por dizer muito pouco sobre a obra. Impossível contentar todo mundo, mas tenho praticado há anos essa solução de compromisso e continuo com boa saúde.  

Mas confesso que ainda não sei direito como vou fazer quando for escrever sobre Wasp Network. 

(Work in progress. Continua)

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