A arte da crítica (12): E quando o autor é meu antagonista ideológico?
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A arte da crítica (12): E quando o autor é meu antagonista ideológico?

Como o crítico precisa encarar o desafio de analisar a obra daqueles que pensam de forma diametralmente oposta e assumem posições que lhe parecem eticamente inassimiláveis?

Luiz Zanin Oricchio

21 de junho de 2019 | 18h33

A cineasta Leni Riefenstahl ao lado de Hitler

Outro dia um leitor fez uma observação em tom provocativo a respeito de um texto. Algo assim como “gostaria de ver se o crítico teria a mesma compreensão e gentileza com alguém que pensasse o oposto do que ele pensa”.

A observação é válida. E se aplica a qualquer época, mas talvez se torne mais aguda no tempo polarizado que nos foi dado viver.

Antes de entrar propriamente na questão, gostaria de lembrar uma passagem do documentário Santiago, Itália, de Nanni Moretti. Como se sabe, nele Moretti recorda a solidariedade da Itália dos anos 1970 com os chilenos perseguidos pela ditadura Pinochet. Primeiro, abrigou centenas deles na embaixada na capital chilena. Depois abriu-lhes as portas do país. Muitos deles refizeram a vida na Itália e lá vivem até hoje com suas famílias. Pois bem, a meditação de Moretti o leva a uma pergunta incômoda: o que foi feito da Itália de então? Como a Itália daquele tempo chegou a esta, atual, capaz de votar na extrema direita, flertar com o neofascismo e hostilizar refugiados e minorias? Uma pergunta que bem caberia também ao Brasil. Onde foi parar aquele país gentil e hospitaleiro que conhecemos e fazia nossa fama no exterior?

Bem, recordei o filme de Moretti porque o diretor aparece apenas duas vezes na tela. No início, na foto que é a do cartaz, contemplando Santiago com a Cordilheira dos Andes ao fundo. Na segunda, quando entrevista um ex-militar acusado de ser torturador e criminoso. O militar se irrita com as perguntas e diz que em geral não dava entrevistas, mas havia aberto uma exceção pois pensava que ia falar com alguém imparcial. Moretti entra em cena, diante das câmeras e diz simplesmente ao entrevistado: “Eu não sou imparcial”. Repete a frase. Não é imparcial. Tem lado. E seu filme tem lado. Está do lado dos chilenos perseguidos, contra os assassinos e ditadores. Ponto.

Também não acredito em isenção. Pelo menos não nessa forma. Ainda mais em situações que escapam à normalidade. E chamo de “normalidade” a alternância democrática, na qual existem eleições e o lado perdedor tem de conviver com o ganhador até esperar sua vez. Há, no entanto, situações-limites, que não permitem tolerância ou isenções. A mais clara é a dos regimes de força, das ditaduras que chegam ao poder de forma ilegítima e oprimem seus povos. Mas há também a daqueles que em aparência trilham a via democrática apenas para destruirem a democracia por dentro. São os casos atuais de Donald Trump nos Estados Unidos, de Matteo Salvini na Itália, de Recep Erdogan na Turquia e de Jair Bolsonaro no Brasil. Diante desses regimes, me parece, a imparcialidade torna-se omissão e covardia.

Bem, este é o caso político. E o que faz o crítico diante de artistas e obras que se situam em seu oposto ideológico? O crítico precisa enfrentar o desafio. Em alguns momentos da História ele se apresentou de forma bastante explícita. O que dizer de um escritor como o simpatizante do nazismo Louis Ferdinand Céline? Podemos descartar uma obra-prima como Voyage au Bout de la Nuit, só porque o escritor esposa ideias que nos parecem degradantes? O que fazer com Leni Riefenstahl, a “cineasta de Hitler”, autora de filmes incontornáveis como Olympia? Ignorá-la? Queimar seus filmes?

São casos extremos. Mas temos agora mesmo um caso no Brasil do dramaturgo Roberto Alvim, apoiador de Bolsonaro e admirador de Olavo de Carvalho, agora conduzido à Funarte. Alvim acaba de lançar um apelo aos artistas de direita para que se juntem a ele e travem uma batalha cultural contra a esquerda. O chamado pareceu reacionário demais até para a Regina Duarte.

Como se posicionar diante disso? Ora, politicamente, me parece bastante claro. Há que combatê-lo e no mesmo campo por ele escolhido, o da chamada batalha das ideias. Mas e sua arte? Digo isso porque assisti à sua excepcional versão teatral de Leite Derramado, romance de Chico Buarque de Holanda. Esse é um caso crítico interessante. Por que motivos um dramaturgo de direita escolhe adaptar o texto de um autor assumidamente de esquerda? Qual é esse insondável caminho?

Bem, aqui entramos na seara da psicanálise ou, talvez, da psicopatologia, e a crítica não tem necessariamente de se haver com os desvãos anímicos profundos dos criadores. Tem, isso sim, de enfrentar os eventuais abismos propostos pela obra. Aí não dá para escapar.

E também não acho que o crítico consiga escapar de todo ileso da análise da obra de alguém ostensivamente situado em seu extremo oposto ideológico. Talvez esses artistas se possam contar como exceções com os nomes já aludidos de Céline e Riefenstahl,  juntados a outros gigantes como Ezra Pound, por exemplo. Mas há, sem dúvida, uma proliferação recente de artistas alinhados a ideias de direita, que surgem acompanhando esse movimento de saída do armário de parte da sociedade.

O assunto é imenso, mas cabe acompanhá-lo. Parece que mais e mais eles sairão à luz do dia e marcarão presença em ambientes antes quase por completo dominados pelo pensamento que ia do centro à esquerda, nas universidades, no mundo das artes e do conhecimento. Essas áreas, de modo geral, abraçam um pensamento crítico em relação ao capitalismo, liberal em termos de costumes, humanista e sensível em relação às injustiças sociais. A coisa está mudando. Há aí um movimento de placas tectônicas e precisamos saber enfrentá-lo.

Conforta saber que esses novos agentes, que falam alto e grosso, cheios de um novo poder, no limite terão de se justificar mesmo através de suas obras e não por grunhidos ou frases feitas no Twitter. São as obras que estarão em questão. E nós, como críticos, precisaremos estar à altura de interpretar essas obras.

Como total isenção? Idealmente sim, mas, no mundo real das coisas e das imperfeições humanas, cabe reconhecer que é sempre difícil deixar de contaminar nossa análise pelo que sentimos em relação ao nosso pólo oposto ideológico. E aqui não estou me referindo ao ser civilizado que pensa diferente de nós e também respeita o nosso pensamento. Refiro-me a pessoas que apoiam e tentam emprestar respeitabilidade a gente que defende ditaduras, homenageia torturadores, não esconde preconceitos, ufana-se da misoginia e hostiliza minorias. Como contemporizar com pessoas assim? Não é preciso: Nanni Moretti já nos deu a resposta. Diante de criminosos, a isenção também é crime.

Mas resta a obra. E, nesta, precisamos avaliar sua qualidade intrínseca, sua “fatura”, como se diz. E, também, procurar entender se e como a visão de mundo do seu autor – essa visão de mundo que o crítico pode desprezar – entra como elemento na forma da obra e lhe confere substância ideológica. Há que saber ver, analisar, decompor elementos e, no limite, ver de que material é feita a coisa.  

Convenhamos, é um desafio e tanto, que exige preparo intelectual e estômago. Mas é o que o tempo nos impõe.  

(Work in progress. Continua)

Leia a série completa de  A arte da crítica

Ou na página do Facebook: A arte da crítica

Tudo o que sabemos sobre:

A Arte da Crítica

Tendências: