A arte da crítica (10): a emoção (1)
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A arte da crítica (10): a emoção (1)

Um crítico deve privilegiar a emoção ou a razão ao escrever sobre uma obra cinematográfica?

Luiz Zanin Oricchio

19 de maio de 2019 | 09h20

Gérard Depardieu e Fanny Ardant em ‘A Mulher do Lado’, de François Truffaut

O assunto é espinhoso e, mesmo sem aflorar de maneira muito explícita, divide a crítica.

Há os que privilegiam uma análise, digamos, mais racional e segura da obra. Correm o risco de esfriá-la, de enxergar apenas o esqueleto daquilo que é carne, nervos e sentimentos.

Mas há também os que só a vêem pelo lado da emoção, deixando em segundo plano a fatura da obra, a sua forma de organização – e estes põem-se à mercê de todas as modalidades de chantagem e expedientes baixos do vasto repertório disponível na indústria cinematográfica, de clichês sentimentais a música melosa.

Um complicador adicional se insinua: como a crítica nunca deixa de ser um ato subjetivo, todo o mundo interior do crítico está lá para interferir de maneira arbitrária sobre a percepção da obra. Quem pode garantir que tal ou qual situação, num mau filme, não vá tocar algum ponto recôndito do meu inconsciente e fazer vacilar meu espírito crítico?

Prevenidos sobre esse perigo, muitos críticos hipertrofiam seu distanciamento da obra, de modo a minimizar a interferência de sua própria subjetividade na avaliação e análise. Pode ser válido, mas não deixa também de ser uma maneira triste de ver cinema. Essa tristeza, transformada pelos anos de uso em amargura, transparece em muitos textos críticos. Certos textos deixam no leitor a impressão de que assistir a um filme é uma experiência extremamente penosa.

Por outro lado, há que lembrar que a dança dos sentimentos possibilitada pelo cinema sempre provocou certa desconfiança política. Não seria a arte catártica e ilusionista capaz de alienar seus espectadores para a realidade ao invés de despertar suas consciências? Uso essa terminologia um tanto datada para evocar debates de meados do século 20. Mas não acredito que estejam de todo superados.

Em todo caso, uma das saídas encontradas foi adotar aquilo que Brecht chamava de distanciamento crítico”. Inscrever na própria linguagem da obra seu caráter de ficção, de artifício, que não deve ser confundido com a realidade, mas mostrar a obra apenas pelo que é – uma representação da realidade. Por exemplo, quebrar a “quarta parede” como o olhar da protagonista para a câmera em Monika e o Desejo, de Bergman, ou expor o maquinário cinematográfico, como faz Fellini no final de E la Nave Va.

Esses procedimentos de distanciamento anulam a emoção? Por experiência própria, digo que não. Talvez até pelo contrário. Quando Monika (Harriet Andersson) olha para a câmera, isto é, nos olha, é como se pedisse a nossa cumplicidade e compreensão. Godard o chamava de o plano mais triste da história do cinema. Nos toca fundo, ao mesmo tempo em que o diretor, pela quebra da regra de jamais os atores olharem para a lente, nos adverte: “olha, isto é um filme, nada além disso”. E, no entanto…

Esse “no entanto” aparece também em E la Nave Va… quando, nos planos finais, surge todo o dispositivo usado até então – um navio falso que “flutua” sobre um mar de plástico, enquanto Fellini e seu câmera a tudo dirigem de um platô armado no alto da cena. É arrepiante, porque também é como se o diretor nos dissesse: “Veja, tudo isso é falso, jamais tentou enganá-lo, tudo é ostensivamente artificial e até precário; e, no entanto, você nos seguiu até agora e se emocionou com o que viu”.

Tenho usado o termo emoção sem defini-lo, na esperança de que todos, por experiência própria, saibam do que  se trata. Para quem pedir maior precisão conceitual, respondo apelando para Santo Agostinho em sua meditação sobre o tempo. “Se não me perguntam o que é o tempo, eu sei. Se me perguntam, já não sei mais”.

É mais ou menos isso. A emoção é parte da nossa experiência da vida. Sentimo-nos emocionados na presença da pessoa amada; ou na sua ausência. Sentimos felicidade, ódio, medo, raiva.  também, por este ou aquele motivo. Talvez seja mais simples ater-se à origem latina: e-moção denota mobilidade, algo que nos move, nos provoca. É assim que dizemos, para voltar à nossa seara, que “tal filme mexeu comigo”. Ou, “tal filme não me provocou nada, me deixou indiferente”.

Emoção é movimento. É algo que que nos desloca de um ponto de repouso. É como uma luz que se acende no interior de um recipiente e lhe dá cor, vida…e mistério.

Como este texto já está grande demais, continuaremos com este assunto no próximo post. 

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