A Arte da Crítica (1). No ventre da baleia
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A Arte da Crítica (1). No ventre da baleia

Quase todo crítico de cinema tem sua definição particular daquilo que faz. Uma espécie de certeza de bolso, uma crença íntima para uso próprio

Luiz Zanin Oricchio

21 de fevereiro de 2019 | 09h44

Quase todo crítico de cinema tem sua definição particular daquilo que faz. Uma espécie de certeza de bolso, uma crença íntima para uso próprio.  

Lembro afoitamente de André Bazin, para quem a crítica seria o prolongamento, pelo texto, do prazer que teve ao ver um filme.

Ou Jean Douchet, que fala da crítica como uma “arte de amar”.

São ideias muito fecundas, embora possam ser acusadas de falta de objetividade.

Não vemos nelas nem a sombra das muitas teorias e reflexões sobre o cinema que, direta ou indiretamente, influenciam e informam aquele que escreve sobre filmes. E ambos – Bazin e Douchet – são muito bem informados sobre essas teorias. Bazin, em particular, embora não seja autor de um “sistema” de pensamento cinematográfico, diversas vezes escreveu sobre temas teóricos, tais como a ontologia da imagem, a questão da montagem, o cinema como arte impura, etc.

Mas, talvez haja aí algo a ser retido. Como acontece com outras “artes”, também a de escrever sobre cinema deve contar tanto com a proximidade como com o afastamento em relação à teoria.

Em poucas palavras: devemos tê-la, mas precisamos “esquecê-la” quando tratamos de um filme em particular.

Da mesma forma como um psicanalista procede, ao colocar entre parênteses a teoria (que ele conhece muito bem) ao se defrontar com aquele indivíduo que tem diante de si, de modo a não perder a sua singularidade em meio à generalidade da teoria.

Há também algo aí a ser desenvolvido a respeito das questões da memória e do esquecimento. Jorge Luis Borges dizia que a melhor maneira de lembrar é esquecer. Não era seu amor ao paradoxo que o levava a essa ideia, mas algo bem concreto, que vinha da sua análise sensível de duas obras – a de Dante Alighieri e a de Herman Melville.

Borges encontra uma semelhança extraordinária entre uma passagem de Moby Dick e outra da Divina Comédia. Cito o comentário, por sua beleza e inteligência (está em A Divina Comédia, em Sete Noites, uma coletânea de transcrições das conferências de Borges):

“É o de outro grande livro, um grande poema de nosso tempo, o Moby Dick, de Herman Melville, que certamente conheceu a Comédia na tradução de Longfellow. Temos o desígnio insensato do mutilado capitão Ahab, que deseja vingar-se da baleia branca. No fim ele a encontra e a baleia o submerge, e o grande romance está em perfeita consonância com o fim do canto de Dante: o mar se fecha sobre eles. É impossível que Melville não tenha se lembrado da Comédia nesse ponto, embora eu prefira pensar que ele a leu e a assimilou a tal ponto que depois pôde esquecê-la, literalmente. Que decerto a Comédia era parte integrante dele, e que depois ele redescobriu o que havia lido muito anos antes, mas a história é a mesma. Com a diferença de que Ahab não é movido por um impulso nobre, mas pelo desejo de vingança.”

Conclusão: só é nosso aquilo que está tão integrado a nosso ser que podemos nos dar ao luxo de “esquecê-lo”. A cultura é esse “esquecimento” ativo e isso serve para compreendermos a relação entre a teoria e esta arte que é a crítica de cinema. Entre outras coisas.

(work in progress. a continuar)

 

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