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A armadilha do êxito *

Luiz Zanin Oricchio

15 de maio de 2012 | 09h29

Dizem os entendidos que depois das conquistas é que os desafios começam para valer. É o que vão entender logo os vencedores dos títulos estaduais, em especial Fluminense e Santos, campeões do Rio e São Paulo, que nem bem podem comemorar suas façanhas e já têm pela frente o terrível desafio da Libertadores da América nas quartas de final.

São, talvez, os dois times mais fortes do País e encaram dois argentinos – o Boca Juniors e o Velez Sarsfield. O que dizer de sensato dessas partidas a não ser que não têm favoritos?

Mas talvez não estejam nos jogos as maiores provas aos vencedores e sim no desafio a ser enfrentado: como superar o desgaste do êxito? Já pensaram nisso? No preço que toda vitória cobra ao vencedor? O Fluminense já recebeu a conta na forma de dois desfalques sérios: Fred e Deco, ambos contundidos em virtude do desgaste muscular. Nesse particular, o Santos foi poupado.

Há outros espectros que rondam os vencedores e, por vezes, os transformam em vítimas do próprio sucesso. Por exemplo, quanto mais técnico for um time, maior o olho gordo sobre ele. Vocês pensam que virei supersticioso e estou me referindo aos malefícios da inveja? Bem, essa também existe, mas entendo que produz mais estragos no invejoso que no invejado. Mas me refiro mesmo às leis de mercado, que tornam os jogadores que brilham os mais vendáveis na feira livre da bola. Apesar de as coisas terem mudado um bocado, as tentações ainda são grandes e os agentes têm pressa em fazer negócios. Afinal, vivem disso, da pressa, do dinheiro fácil e da instabilidade dos clubes.

De modo que a resistência em promover desmanches no pós-título deve ser tenaz e impiedosa. Os clubes de sucesso não podem vacilar. Já melhorou em relação ao passado recente. Aos poucos os times brasileiros vêm aprendendo que é melhor vender o espetáculo que negociar o artista. Mesmo assim, os apelos do dinheiro fácil e rápido não podem ser menosprezados. No passado não era raro um time ter desempenho brilhante num ano e lutar contra o rebaixamento no seguinte. O próprio Santos experimentou há pouco essa montanha-russa. Foi campeão brasileiro em 2004 e por pouco não caiu em 2005.

Manter-se no topo é uma arte. Como diz o clichê (verdadeiro) é até mais difícil do que chegar lá. Porque, quando você está em evidência, tudo conspira contra. O time da moda é também o time a ser batido. Todo mundo quer tirar uma casquinha – e isso aumenta o nível de competitividade (por isso, também, a presença de um time excepcional aumenta, por si só, o nível da disputa). E, por fim, há o desafio maior do vencedor: manter os pés no chão, domar o próprio ego. Saber que não existe vitória contínua e que a derrota está à espreita, na esquina. Quando o vencedor se julga imbatível, e veste o manto da soberba, é o princípio do fim.

Fariam bem todos os campeões de 2012 em se vacinar contra esses perigos e tentações do êxito.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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