A Argentina e o papa
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A Argentina e o papa

Luiz Zanin Oricchio

13 de março de 2013 | 22h41

BUENOS AIRES- Quis o acaso que eu estivesse em férias na Argentina quando o Cardeal Bergoglio foi eleito papa Francisco 1.

A princípio a reação pareceu fria. Na avenida principal da cidade, a 9 de julio, o trânsito seguia seu caos habitual. Como os motoristas argentinos buzinam, meu Deus! Brinquei com o porteiro do hotel: ” vocês estão com tudo, hein? Messi em grande fase, agora o papa; não deixaram nada pra nós”. Gentil, me respondeu: ” Vocês tem o Neymar”. Gracias.

Enfim, as pessoas cuidavam de suas vidas. Depois, fui a uma loja atrás de uma bolsa e, no fim da compra, a lojista não aguentou e perguntou o que achávamos do papa argentino. Cumprimentei-a e devolvi a pergunta. O que ela achava? Estava emocionada, disse, porque era católica praticante. Repeti com ela a brincadeira que tinha feito com o porteiro. Me respondeu: ” sim, aqui temos tudo, menos uma presidenta”. Há uma má- vontade generalizada em relação a Cristina Kirchner.

Não unânime, porém. Perguntei como estava a situação a um motorista de táxi e ele me deu uma reposta simples: ” Para quem trabalha está muito bom. São os poderosos que detestam os Kirchner, não o povo.” Acredito que tenha razão.

De qualquer forma, logo após o anúncio, em meio às ocasionais patriotadas, a mídia começou a se lembrar dos atritos entre o conservador Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, e os Kirchner, em torno de questões como casamento homossexual, aborto, eutanásia, etc.  Exumou-se, também, a extrema tolerância da Igreja argentina com a ditadura militar.  Enfim, o ufanismo, pelo menos num primeiro momento, veio temperado por uma certa racionalidade.

À noite, houve comemoração popular em frente à Catedral de Buenos Aires, que, por ironia, fica ao lado da  Plaza de Mayo, a algumas dezenas de metros da Casa Rosada, sede do governo.  Foi discreta. Um comentarista e TV disse mesmo que, se fosse no Brasil ou no México, haveria carnaval nas ruas, praças lotadas, etc.  Aqui, predominou a discrição, embora, claro, sinta-se a emoção dos argentinos, em especial daqueles que têm fé. Nada de muito exagerado.

Como o argentino é muito politizado, havia outras manifestações concorrentes. Estudantes e professores em greve, mulheres que exigem creches para os filhos, etc. Todas na Plaza de Mayo e adjacências. Por um momento, os jornalistas temeram que as manifestações políticas e a religiosa se enfrentassem. Mas conviveram. Ou talvez tenham se ignorado mutuamente. Logo, todo mundo foi dormir.

Amanhã é outro dia e, com papa ou sem papa, há que ganhar a vida, e não está fácil para ninguém.

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