A Alma de Hitchcock
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A Alma de Hitchcock

Luiz Zanin Oricchio

02 de março de 2013 | 20h22

 

Há uma diferença que salta à vista entre o filme de Sacha Gervasi e o livro em que se inspira. No livro de Stephen Rebello (Hitchcock – os Bastidores da Filmagem de Psicose), a mulher de Hitchcock, Alma é mencionada uma ou duas vezes, e de maneira superficial. No filme, ela ganha dimensão de coautora do trabalho do marido. Interpretada por Helen Mirren, Alma Reville é muito superior àquele clichê segundo o qual por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Ela, sempre segundo a versão cinematográfica, está ao lado do genial marido e, pelo menos em algumas ocasiões, à sua frente. Claro, este é um filme de corte feminista, bastante adequado ao momento presente.

No mais, é um interessante mergulho nos bastidores de realização de um clássico, talvez o mais conhecido trabalho de Hitchcock, mas que ganhou fama em meio a um generalizado ceticismo dos estúdios. Aos 60 anos, Hitch já era, havia muito, um cineasta rico e consagrado. Morava em mansão e mandava trazer a comida do Maxim’s, em Paris, via Concorde. Daqueles que, conforme o jargão em voga, “não tinha nada a provar a ninguém”. Bobagem. Os seres humanos, mesmo os mais geniais (e talvez estes mais que os outros), estão sempre tentando provar alguma coisa aos outros. O reconhecimento do próximo é o calcanhar de Aquiles da humanidade e o motor de toda a inventividade. E também de muita confusão e crueldade, mas esta já é uma outra história.

De qualquer modo, Hitch, que se tornara famoso não apenas por seus filmes, mas, acima de tudo, por seu ultrapopular programa de TV, sentia-se desgastado. Experimentava necessidade de se reinventar. E  encontrou no livro de Robert Bloch, Psycho, material interessante para essa reinvenção. Não que o romance fosse uma maravilha, mas relatava, de forma ficcional, os crimes verdadeiros praticados em 1957 por certo Ed Gein, serial killer do Estado de Wisconsin. Norman Bates, o personagem criado por Bloch, e interpretado em Psicose por Anthony Perkins, é inspirado na doentia figura de Gein, assassino que guardava souvenirs de suas vítimas (mulheres em geral) em casa, como peles, orelhas e narizes. Um horror.

E foi assim que a Paramount, ao tomar conhecimento do interesse de Hitchcock pela história, tirou o corpo fora. Hitch foi obrigado a produzir ele mesmo o filme, o que era um risco tremendo de perder toda a sua fortuna. O estúdio foi convencido a, apenas, distribuir a obra depois de pronta e, mesmo assim, ficou com o pé atrás.

Portanto, Hitchcock, de Sacha Gervasi, não é exatamente uma cinebiografia do mestre do suspense, mas o registro (também ficcional) de um momento decisivo de sua vida e carreira. Hitch é vivido por um Anthony Hopkins intenso, contido, talvez preocupado em não transformar o seu personagem em caricatura, o que é um desafio adicional. Hitch tinha um tipo físico peculiar, um modo de falar todo seu, um senso de humor constante e cortante. Era um tipo e tanto. Enfim, presta-se muito bem para clichês, assim como se prestava, entre nós, uma figura igualmente marcante como Nelson Rodrigues.

Mais difícil é dar-lhes dimensão humana, e isso Gervasi tenta fazer com seu Hitchcock. Mostrando-o como glutão incurável, um tanto alcoólico, inseguro porém sedutor com as mulheres. E, especialmente infantil em seu relacionamento com Alma. Cultiva um ciúme doentio quando ela começa a escrever um roteiro com outro escritor, o que equivaleria, simbolicamente, a uma traição sexual. Mostra-o tirânico com suas atrizes, Janet Leigh (Scarlett Johansson) e Vera Miles (Jessica Biel).

O caso de Miles é típico. Escolhida por Hitch para estrelar Um Corpo que Cai (1958), fica grávida e não pode fazer o papel, que passou para Kim Novak. O diretor nunca a perdoou. Mas, como ainda a tinha sob contrato, submeteu a estrela à humilhação de um pequeno papel em Psicose como a irmã de Marion (Janet Leigh), a ladra assassinada no Motel Bates.

A cena mais importante de Psicose, a morte no chuveiro, também é abordada pelo filme, mas não com a riqueza de detalhes que encontramos no livro. É que apesar de ser um filme sobre o cinema, o Hitchcock de Gervasi não deseja ser técnico em excesso. Uma opção válida, certo, mas que não informa ao espectador porque essa é uma das cenas decisivas na história do cinema, quase tão importante quando a das escadarias de Odessa no Encouraçado Potemkim, de Eisenstein. Para se ter ideia, Hitch, gastando do próprio bolso, levou quase um terço do tempo total de filmagem apenas para produzir os meros 45 segundo de filme, obtidos com 70 (!) posições diferentes de câmera.

Enfim, conciso como deve ser um filme de público, Hitchcock não entra em grandes detalhes sobre a trabalhosa montagem de Psicose. O gênio marqueteiro do diretor está lá, ao proibir que as pessoas entrassem nas salas depois de começado o filme, ou implorar para que ninguém contasse o desfecho aos amigos para não estragar-lhes a surpresa. Conta também que Hitchcock mandou comprar e destruir todos os volumes encontráveis da obra de Block, para que ninguém soubesse do enredo de antemão.

Em sua simplicidade, Hitchcock fala tanto da tumultuada criação de uma obra marcante do cinema, como é Psicose, como do caso de amor entre o diretor e Alma. E esse outro caso é mesmo uma das grandes histórias do mundo do cinema.

O livro

Em Hitchcock – os Bastidores da Filmagem de Psicose, Stephen Rebello entrega o serviço completo que o título do seu livro promete. Serve ao leitor, em detalhes, as circunstâncias que cercaram a feitura desse que é um dos filmes mais famosos do velho Hitch.

Fala da série de crimes que inspirou o romancista Roberto Bloch a escrever Psycho, das tentativas de roteiro, das dificuldades em convencer os estúdios a financiarem história tão macabra, do trato (complicado) do cineasta com atores e atrizes, de peripécias da filmagem e proezas da montagem.

Fala de lendas e tenta desmistificá-las. Por exemplo, em torno da filmagem da cena mais célebre, a do assassinato de Marion (Janet Leigh) no chuveiro. Durante algum tempo, correu a lenda de que o designer de créditos, o genial Saul Bass, teria sido o responsável pela sequência. O próprio Bass andou alimentando a versão. Rebello ouve testemunhas da filmagem, protagonistas e assistentes e conclui: “Num filme de Hitchcock existe apenas um diretor: Alfred Hitchcock”. E ponto.

Mas, é claro, mesmo sendo “autoral”, um filme como Psicose, aliás como qualquer outro, depende da soma de iniciativas individuais que, somadas e orquestradas pelo diretor, redundam na obra final. Daí que, quando a criança é bonita (no caso, é linda) todos reivindiquem a paternidade, sobretudo quando o egoico Hitchcock parece querer convencer a todos de que fez tudo sozinho. “Ele não era nada generoso na distribuição de créditos”, admite Rebello. De modo que é provável a participação de Bass no desenho da cena, mas quem a dirigiu e concebeu, afinal, foi o próprio Hitchcock, partindo da ideia de que queria representar um assassinato horrível sem uma única gota de sangue.

A cena dura 45 segundos, com 78 diferentes posições de câmera para compô-la. A sequência inteira, no quarto do motel, com Marion anotando contas em um papel, depois jogando-o no vaso sanitário, entrando no chuveiro e sendo assassinada, dura pouco mais de três minutos e meio. A feitura da parte do chuveiro gastou 11 dias de trabalho de um total de pouco mais de um mês, consumido para realizar o filme inteiro. É um trabalho de preciosismo e de ourivesaria. A princípio Hitch queria a cena silenciosa, mas foi convencido a incluir a trilha sonora de Bernard Hermann, incisivos acordes que parecem acompanhar os movimentos da faca.

Existiam outras complicações, como a recusa de Janet Leigh em aparecer nua. Uma dublê de corpo, Marli Renfro, foi convocada para “interpretar” partes que a protagonistas não consentia. Entrevistada depois, Janet Leigh disse que, apesar de a dublê ter sido filmada repetidamente em cenas intermediárias, a montagem final usa apenas imagens do seu próprio corpo. Quem tem razão? O resultado, todos sabem, foi esplêndido; tornou-se uma sequência clássica da história do cinema.

Mesmo assim, com tanto perfeccionismo, houve problemas. Alma insistia que Marion, já morta, “piscava” o olho. Ninguém via. Mas se comprovou, na moviola, que ela tinha razão e tiveram de refazer a parte. Mesmo assim, um oftalmologista botou defeito. Disse que o close do olho, no final, não era realista. “A pupila estava contraída”, afirmou. “Se a pessoa estivesse morta, estaria dilatada. Bastaria uma gota de colírio adequado para resolver”. Enfim, sempre existem os incontentáveis. Mas a imensa maioria do público se arrepiou. E gostou imensamente, segundo a tese de Hitchcock, jamais desmentida, de que as pessoas adoram sentir medo.

Hitchcock era também homem do entretenimento e muito bem falante. Não lhe faltava humor. Ao homem que lhe escreveu queixando-se de que a filha se recusava a entrar no chuveiro depois de ter visto o filme, respondeu: “Recomendo lavagem a seco”.

 

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