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A Alegria

Luiz Zanin Oricchio

19 de agosto de 2011 | 21h58

Duas crises se superpõem em A Alegria, de Marina Meliande e Felipe Bragança. A crise da adolescência de Luisa (Tainá Medina) e a crise da cidade do Rio de Janeiro, presa da violência. Luisa sente que a cidade lhe foi tomada quando um primo, João, mecânico de profissão, some após uma matança na Baixada Fluminense. O lado “realista” é esse.

Enquanto isso, Luisa tem de se haver com algo tão urgente quanto despertar da sua sexualidade, que, no entanto, não se dá sem conflitos. Os pais são separados e a mãe (Mariana Lima) a deixa sozinha em casa para fazer companhia à sua irmã (Maria Gladys), mãe de João e preocupada com o desaparecimento do filho. O pai (Márcio Vito) aparece esporadicamente e é figura interessante, protetora, porém liberal.

Deve-se dizer que essa linha de roteiro se realiza em ambiente cinematográfico oscilante entre o realismo e algo que se poderia chamar de fantasia. A própria Luisa coloca a questão em um plano mítico. O da cidade tomada, que deve ser reconquistada. Entende-se. Essa, talvez, seja a sensação mais bem distribuída entre os moradores das metrópoles brasileiras, e não apenas o Rio de Janeiro: a de que a cidade foi sitiada por algo estranho e seria tarefa dos seus moradores reconquistá-la. Luta que se trava mais no plano da imaginação que no das coisas reais.

Enquanto celebra a alegria (essa perene “prova dos noves”, como a definia Oswald de Andrade) como arma de combate, o filme de Bragança & Meliande faz também a apologia do poder jovem contra um mundo cansado. À resignação, brande as armas da revolta e do inconformismo, mesmo que, como é de costume hoje em dia, não saiba bem contra quem elas apontam. Não se trata de falta de lucidez. É assim mesmo neste presente pegajoso, quando se torna difícil distinguir entre inimigos e aliados, indefinição que propõe um desafio a mais para quem se encontra às portas do mundo adulto.

Tainá Medina, com seu rosto meigo, expressa essas contradições. Meiga, rostinho de criança e brincos infantis de estrelinhas, transforma-se em guerreira adulta para reconquistar aquilo que entende ser seu – a cidade, a amizade, o amor, o direito à vida.

Esse ato de afirmação teen bate na tela com uma bela mistura de gêneros, embalada pela Nona Sinfonia de Beethoven, o famoso 4.º movimento, em que o compositor musicou a ode de Schiller. Contra o destino cruel, as forças da alegria, únicas capazes de manter vivo o ser humano em sua frágil contingência.

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