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A alegria vem do campo de jogo

Luiz Zanin Oricchio

02 Fevereiro 2010 | 16h28

Como costumo dizer ao meu amigo Antero Greco: estava passeando por acaso pelo simpático bairro da Vila Belmiro no sábado quando fui surpreendido pela notícia de que havia jogo e então resolvi entrar no estádio. A partida não foi lá essas coisas, mesmo porque o adversário não ajudou, mas não dá para se queixar. Reencontrei amigos, conversamos, rimos, e, o principal, nos divertimos com as travessuras dos meninos em campo.

Brincadeiras à parte: o que mais se notava no mitológico Estádio Urbano Caldeira era o ambiente muito alegre, descontraído, refrescante, mesmo sob o escaldante verão santista. Para quem acompanhou o time de perto nos dois últimos anos, a diferença parecia nada menos que chocante. Da depressão profunda passou-se não digo à euforia, mas a uma felicidade palpável. As pessoas pareciam com o astral lá em cima. Educadas, confraternizavam-se, conversavam entre si e riam, como deveria ser a regra em um estádio de futebol, que, afinal, é o templo sagrado de uma celebração chamada futebol, inventada por ingleses e aperfeiçoada por brasileiros. Mas sabemos que a confraternização é mais a exceção do que a regra em estádios, que hoje se assemelham mais a trincheiras do que a salões de festas. Enfim, a Vila estava ótima.

Vão me dizer que isso se deve à chegada de Robinho, que ontem se apresentou à torcida com direito a descida de helicóptero, Rei Pelé, show de rock e tudo o mais. Sim, o retorno, ainda que breve, do rei das pedaladas é parte desse clima bom. Mas o motivo da alegria já estava em campo antes disso e atende pelo nome de “novíssimos meninos da Vila”. Engraçado: o torcedor já conhecia Neymar & Ganso do ano passado. Mas parece que 2010 é, de fato, o ano inaugural, não só da dupla, mas de uma penca de garotos bons de bola que vão chegando por aí: André, Alan Patrick e Cia.

Essa alegria da meninada em campo se transmite à arquibancada. É como se a torcida se sentisse, ela própria, rejuvenescida. Nesse time ainda incipiente, oscilante, a torcida santista adivinha aquele futebol de vocação ofensiva e lúdica que caracteriza não apenas o seu time, mas o que de melhor produziu o futebol brasileiro ao longo de sua história. Uma linha de ataque com Robinho, Ganso, Neymar e, quem sabe, Giovanni: nem o mais otimista dos torcedores poderia sonhar com isso. E ela aí está. Não sei se ganha títulos. Afinal, alguém precisa marcar nesse time e mesmo o futebol exige certa racionalidade. Mas que será um prazer vê-los jogar, quanto a isso não há dúvida. Um prazer e uma alegria. Afinal, como dizia um dos meus ídolos, Oswald de Andrade, “a alegria é a prova dos noves”.

Dizem que o futebol profissional exige ser jogado “a sério”. Tornou-se sério demais, e perdeu em espontaneidade o que ganhou em eficácia. Dessa seriedade às vezes descreio. Será que o futebol praticado com alegria não tem pelo menos a mesma eficiência daquele que se assemelha a um trabalho duro, sofrido e responsável? Ora, me dirá um racionalista, o melhor é quando as duas qualidades se misturam e produzem, digamos, uma seleção de 1970, para ir ao exemplo supremo. Só posso concordar. Mas, talvez, se tivesse de optar por uma das duas virtudes, ficaria com a que faz do futebol expressão da felicidade humana. Acho que combina mais com ele.

Prefiro o futebol que dá prazer e conforta a alma.

(Coluna Boleiros, 2/2/2010)