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A Alegria de Emma

Luiz Zanin Oricchio

03 de outubro de 2008 | 23h14

Possivelmente ninguém sairia de casa para assistir a um filme com um enredo desses: Emma vive sozinha em sua fazenda e cria porcos, que ela mesma mata e transforma em lingüiça. Bonita moça, arrisca-se a perder a propriedade por dívidas, até que conhece um rapaz que pode ser a solução de seus problemas, afetivos e financeiros. Só que ele sofre de um câncer terminal e tem pouco tempo de vida. Quer mais?

Pois bem, apesar desse enredo tenebroso, o filme de Sven Taddicken consegue passar certa leveza e mesmo humor em determinados momentos. Conta com a boa atuação da atriz principal, a bonitona Jordis Triebel que faz o papel de Emma. E dá, no final, uma aura humana aos seus personagens, que teriam tudo para parecerem pouco mais do que caricaturas. Na maneira como conduz a história, Taddicken evita o que seria o óbvio. Podemos, por exemplo, imaginar o que seria dela num filme abertamente comercial, em que a necessidade de redenção estivesse presente, mesmo em situação tão limite.

Não é o que acontece em A Alegria de Emma. De um lado, o diretor coloca a garota bastante selvagem, mas de bom coração, que mora em sua fazenda como se habitasse em uma caverna, sem qualquer hábito de higiene. Cobiçada sexualmente pelo policial da cidadezinha próxima de sua propriedade, ela na verdade sente-se melhor entre seus porcos que entre os homens. A descrição cinematográfica da história de Emma se desenvolve paralelamente à de Max (Jürgen Vogel), vendedor de carros usados que um dia se descobre doente de um câncer no pâncreas. É evidente para o espectador, até pela maneira com as seqüências são montadas, em paralelo, que essas histórias de vida individuais terminarão por se cruzar. Mas talvez, e aí começam as surpresas, não da maneira como se poderia esperar. E então começam a funcionar as diferenças entre um cinema mais previsível, mais colocável no mercado, e outro, que não se preocupa tanto em seguir ritmos mais palatáveis ao gosto médio, não se submete aos screening tests, etc. E são justamente esses pequenos afastamentos em relação à norma que fazem o encanto de A Alegria de Emma.

Não, não é um grande filme, longe disso. E poderia muito bem aprofundar sua veia autoral e ir além em algumas situações. Mas a verdade é que, mesmo evitando a radicalidade em alguns momentos, Taddicken compõem uma história repleta de humanismo, mas nunca piegas. É interessante, talvez, fazer uma pequena digressão neste ponto. Houve época em que “humanismo” era um valor a ser cultivado. Chamar de humanista um ato, uma obra, uma pessoa, era um elogio. Hoje parece um contravalor, ou mesmo um xingamento. Humanismo é uma atitude a ser evitada. Por exemplo, quem gosta de Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, elogia o diretor porque ele conseguiu não ser tão humanista quanto em Central do Brasil.

Fechado o parêntese podemos dizer que A Alegria de Emma é humanista, e duro. E isso, para nós, é um elogio sim.

(Caderno 2, 3/10/08)

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