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A Academia na idade da razão

Luiz Zanin Oricchio

23 de fevereiro de 2009 | 15h41

Um Oscar diferente? Sem dúvida. Basta uma olhada nos cinco filmes concorrentes à categoria principal para se convencer disso. Quem Quer Ser um Milionário?, Frost/Nixon, O Curioso Caso de Benjamin Button, Milk – a Voz da Liberdade e O Leitor são, não apenas de boa qualidade, mas dirigidos a um público intelectualmente maduro – o que não quer dizer público velho em termos etários. Os cinco filmes foram criados por cinco cineastas que disputam entre si a estatueta de melhor diretor. É muito provável que melhor filme e melhor diretor formem um par perfeito na premiação da Academia este ano.

Há quem atribua esse salto rumo à maturidade a uma sutil mudança de composição da Academia, que viria se processando há alguns anos. É o caso do especialista Michael Cieply. Em artigo no New York Times, ele sustenta que a Academia, até há pouco dominada por homens de finanças, vai lentamente voltando para as mãos do pessoal do cinema. Outro fator benéfico é o ingresso de estrangeiros nos quadros desse clube hollywoodiano. De fato, um novo acadêmico deve ser indicado por membros antigos e ter reconhecidos trabalhos prestados ao cinema, etc. Mas há outro meio: todo indicado é, potencialmente, membro da Academia, como já acontece com vários brasileiros, como Hector Babenco, Fernando Meirelles, Fernanda Montenegro, entre outros. Esse arejamento seria responsável pela presença de tantos bons filmes, na verdade o que de melhor havia no cinema norte-americano em condições de competir.

Claro, há ausências sempre sentidas. Os fãs de Batman – o Cavaleiro das Trevas estão chiando desde que saiu a lista dos indicados e o filme não apareceu lá, disputando a estatueta principal – já Heath Ledger é tido como certo para o prêmio póstumo de coadjuvante pelo seu Coringa, repetindo o que aconteceu no Globo de Ouro. Mas essa consolação pouco conforta os fãs, insaciáveis por definição.

Duas ausências, no entanto, parecem muito mais graves – a de Queime Depois de Ler, formidável sátira à CIA dos irmãos Coen, e Benicio Del Toro, cuja composição de Ernesto Che Guevara no épico de Steven Soderbergh sobre o guerrilheiro não poderia ter passado despercebida. Fala-se também, como terceira omissão importante, que Woody Allen poderia ter recebido alguma indicação a mais por seu solar Vicky Cristina Barcelona, representado apenas por Penélope Cruz, candidata a melhor coadjuvante. Enfim, sempre existem essas discussões, mas creio que Allen deve estar se lixando para elas.

O que importa é a qualidade dos filmes que acabaram entrando no páreo da premiação norte-americana, a mais midiática do planeta. Entre os cinco, de Hollywood mesmo, block buster puro, de cepa, só Benjamin Button, de David Fincher, a criativa adaptação do conto de F. Scott Fitzgerald sobre o homem que avança no tempo em sentido contrário – vai da velhice à infância, remoçando a cada ano que passa. É o filme com maior número de indicações – 13 – e, para alguns, o favorito, pois representaria, mesmo num ano atípico, a palavra final da indústria.

No entanto, para outros analistas o favorito é um filme miúra, Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, filmado na Índia e com grande parte de elenco indiano. Ganhou o Globo de Ouro e tem 11 indicações, vindo logo atrás de Benjamin Button. A história é curiosa. Um rapaz originário das favelas de Bombaim concorre num desses programas de perguntas e respostas e está preste a ganhar o prêmio principal. Como é possível que um favelado conheça tantas respostas certas? Bem, o filme contará isso, numa linguagem que despreza a verossimilhança em favor da fantasia dos filmes de Bollywood, nos quais se inspira. Esse anti-realismo tem despertado algumas resistências e antipatias. E há quem diga também que dificilmente a indústria de Hollywood premiaria uma produção terceirizada em outro país, na Índia nesse caso. No entanto, admitindo-se a tese da “nova Academia” também isso se tornou tão possível como o sonho de um favelado fazer-se milionário. Mas o que talvez ainda mais incomode seja essa mescla de fantasia com uma câmera tão realista em seu olhar sobre as favelas que o filme foi erroneamente comparado a Cidade de Deus. Mistura de registros costuma desconcertar.

Milk, de Gus Van Sant, é a história real do primeiro ativista gay que conseguiu ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos. Com uma interpretação nuançada de Sean Penn, é um filme sóbrio, com o diretor colocando sua discrição a serviço da pintura do personagem. O Leitor, de Stephen Daldry, é uma revisita ao tema do Holocausto, mas sob a inusitada ótica de um carrasco de campo de concentração. A atuação brilhante de Kate Winslet contribui para que esse tema, tão importante como batido, apareça sob nova e desconcertante luz.

Já Frost/Nixon, de Ron Howard, faz uma sólida reflexão sobre o poder e seus desmandos através da história (real) do jornalista que entrevista Nixon, e o coloca contra a parede, depois da renúncia em razão do caso Watergate. Frank Langella interpreta Nixon de forma brilhante. Sem parecer-se em nada ao personagem real, realmente o “recria” na tela, e, com toques sutis, como um franzir de testa ou um olhar, nos faz às vezes crer que estamos diante do próprio ex-presidente. Produzido no ocaso do governo Bush, o filme é obviamente um exemplo histórico talhado para referir-se ao presente. Afinal, por comparação com o que veio depois, Richard Nixon parece até inofensivo.

Talvez seja também o caso de comemorar que, ao lado desses títulos principais, outros independentes estejam na competição, como é o caso do sensível Rio Congelado, que entrou em cartaz em nesta sexta-feira. Com orçamento ínfimo (menos de US$ 1 milhão) traz uma Melissa Leo em estado de graça, podendo surpreender no quesito melhor atriz. Também prova de maturidade são alguns dos representantes na categoria de filme estrangeiro, como o favorito Valsa com Bashir, do israelense Ari Folman, o francês Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, e The Baader Meinhof Complex, do alemão Uli Edel.

Não se pode dizer que a Academia tenha chegado à idade da razão. Simplesmente, voltou a ela, depois de muito tempo de insensatez econômica e sedução por concorrentes de comprovado sucesso na bilheteria. O cinema é atividade econômica, mas vai além dela.

(Cultura, 22/2/09)

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