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60 anos de literatura sobre crimes nazistas

Luiz Zanin Oricchio

04 de novembro de 2007 | 09h21

Em sua edição de setembro, a Magazine Littéraire traz dossiê dos “60 anos de romances sobre o nazismo”, com subtítulo “De Albert Camus a Jonathan Littell” e destaque para entrevista com Norman Mailer que está escrevendo uma oceânica obra sobre Adolf Hitler, distribuída em vários tomos, o primeiro deles The Castle in the Forest, sobre a infância do personagem. O dossiê da Magazine é amplo o bastante para compreender de clássicos como A Peste, de Camus, publicado em 1947, aos grandes textos de Primo Levi (É Isso Um Homem? e A Trégua), chegando até a grande polêmica literária do ano, As Benevolentes, de Jonathan Littell.

O êxito fulminante do romance de Littell (prêmio Goncourt e 700 mil exemplares vendidos, segundo a Gallimard) vem ao encontro da opinião de que o fenômeno nazista ainda não foi digerido por completo na Europa. E mesmo em continentes menos diretamente atingidos, como provam as sucessivas traduções do livro e também o interesse de um escritor como Mailer pelo tema.

O curioso é que Littell foi acusado por alguns críticos de relativizar o horror nazista ao dar a palavra a um personagem como Max Aue, carrasco erudito e homossexual, que relembra sem traço de culpa sua trajetória como membro das SS.

Já Norman Mailer, em entrevista à Magazine, diz que seu interesse por Hitler não significa qualquer tentativa de atenuar seus crimes. Muito menos “humanizá-lo”, como se costuma dizer. Isso não impede que reconheça em Hitler um personagem opaco, de difícil interpretação, cuja infância foi pautada por relações complicadas com o pai, Alois. A certa altura o entrevistador pergunta: “O senhor tem a impressão de compreender melhor agora o mistério Hitler?” Resposta: “Acredito até que sou uma das poucas pessoas a compreendê-lo. Com o risco de chocar, eu diria mesmo que se acreditamos em Jesus como filho de Deus, por que não podemos acreditar em Hitler como filho do Diabo?”

Por coincidência, acaba de sair uma grande entrevista de Littell no Babelia, suplemento literário do diário espanhol El Pais. Nela, Littell procura desfazer a impressão de qualquer tipo de complacência com o nazismo. Diz que seu livro é apenas fruto de um vasto esforço para compreender a natureza do crime de Estado.

Afirma que não é de maneira alguma um relativista em matéria de ética e que, ao escrever, viu-se obrigado a constatar que a cultura não nos protege contra a barbárie, como em geral se pensa. “Os nazistas são a prova disso. Você pode sentir uma admiração profunda por Beethoven ou Mozart, ou ler o Fausto, de Goethe, e ser uma merda de pessoa. Não existe conexão direta entre a cultura com C maiúsculo e suas opções políticas.”

De qualquer forma, o nazismo e seus personagens continuam a inspirar obras históricas ou ficcionais, mais de 60 anos depois de encerrada a 2ª Guerra. Como explicar esse fenômeno senão pelo permanente fascínio exercido pelo mal?

(Cultura, Revista das Revistas, 4/11/07)

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