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58 nos tornou príncipes

Luiz Zanin Oricchio

29 de junho de 2008 | 10h56

A matéria é controversa, mas você já parou para pensar qual das Copas conquistadas pelo Brasil é a mais importante? Claro, todas tiveram seu enorme valor. A de 1962 foi a reafirmação de que o Brasil tinha mesmo o melhor futebol do mundo. A de 1970 foi o apogeu de Pelé em sua maturidade e a conquista da Jules Rimet em definitivo. A de 1994, o fim de uma longa fila de 24 anos sem títulos. E a de 2002, a volta por cima de Ronaldo e a hegemonia da seleção já no quadro do futebol globalizado.

Mas penso que a mais importante foi mesmo a de 1958. A primeira conquista, a primeira Copa do Mundo. Pela primeira vez o brasileiro sentia o gosto de ser campeão mundial. Isso, como outras coisas na vida, não tem preço. Mesmo porque, antes da campanha da Suécia a seleção estava desacreditada, vítima de uma desconfiança da torcida que vinha de outras eras. Por exemplo, o brasileiro já achava que tinha um futebol de primeira linha desde a Copa de 1938, na França, quando Leônidas e Domingos da Guia encantaram os europeus. Mas a seleção caiu diante da Itália num pênalti controverso que Domingos teria cometido no atacante Piola.

Depois houve a catástrofe de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai em pleno Maracanã podendo empatar para levar a taça. Sobrou desse desastre um tremendo complexo de inferioridade. A Copa de 54 teria sido a comprovação do ?complexo de vira-latas? criado por Nelson Rodrigues, não fosse o fato de o Brasil ter sido desclassificado pela poderosa Hungria, um dos maiores times de todos os tempos.

Enfim, 1958 era a síntese de todos os complexos e derrotas passadas, mas agora já temperados por um novo tempo. Afinal, o país provinciano e atrasado vivia uma febre de desenvolvimento. Estava cozinhando a bossa nova, o cinema novo, a construção de Brasília, e seu presidente prometia 50 anos de desenvolvimento em cinco. Éder Jofre e Maria Ester Bueno começavam a brilhar no plano internacional. Faltava o futebol. Justo ele, que nos apaixona e nos define. Mas, quando o Brasil começou a jogar, viu-se que não faltava mais nada. Em especial depois que Pelé e Garrincha entraram no time contra a Rússia e barbarizaram.

Depois desse jogo mítico contra a URSS, vieram País de Gales (1 a 0), França (5 a 2) e, por fim, a Suécia (5 a 2). Esse jogo mágico, de 50 anos atrás, guarda dois momentos esplendorosos, entre todos. Didi com a bola na mão, andando lentamente para centro do campo depois de o Brasil ter tomado o primeiro gol, de Liedholm. Era um príncipe sereno, que mostrava a todos que a vitória brasileira viria de maneira tão inevitável como o raiar do dia ou o pôr-do-sol. Não era preciso ter pressa. Ou medo. O outro momento é o do quinto gol: bola erguida na área, o garoto negro a disputa com o goleiro, cabeceia para cima e ela entra, mansa, no canto. Nascia ali o rei Pelé. Que, em seguida, cai desmaiado, de emoção, sendo atendido por Garrincha.

1958 é a Copa da nossa felicidade e redenção. Nelson Rodrigues escreveu que, naquele dia, todo brasileiro, por mais pobre que fosse, era um príncipe, como Didi. Somos todos príncipes, até hoje, quando nos lembramos daquela conquista.

(Especial Esportes, comemorativo dos 50 anos da Copa na Suécia, 29/6/08)

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