50 anos da ‘Batalha da Maria Antonia’
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50 anos da ‘Batalha da Maria Antonia’

Nos dias 2 e 3 de outubro de 1968, estudantes da USP e do Mackenzie se enfrentaram na chamada Batalha da rua Maria Antonia. Saldo: um estudante morto e o prédio da USP destruído.

Luiz Zanin Oricchio

04 Outubro 2018 | 13h37

Fui ontem ao Centro Cultural Maria Antonia para palestras e (re)lançamento de dois livros referentes ao famoso conflito entre USP e Mackenzie nos dias 2 e 3 de outubro de 1968.

O conflito, vocês lembram deixou morto um estudante secundarista e destroçado o prédio onde funcionavam os cursos da USP. Estes foram se abrigar, de maneira precária, na Cidade Universitária, nos locais que chamávamos de “barracos”.

Bem, esse é o passado. Mas o passado não passa. Tem de ser lembrado, é registro da História. Memória é resistência. 

Nesse sentido, serão lançados o Livro Branco e Maria Antonia: uma Rua na Contramão. Ontem estavam disponíveis apenas exemplares para os autores presentes. Em alguns meses estarão nas livrarias. E, talvez, disponíveis online.  

Para falar dos livros – e dos acontecimentos a que se referem – montaram-se duas mesas. Sobre o Livro Branco, com Carlos Alberto Barbosa Dantas (Caio) e Irene de Arruda Cardoso, com mediação de André Singer. Para Maria Antonia: uma Rua na Contramão, com Adélia Bezerra de Menezes, Franklin Leopoldo e Silva, Marilena Chauí, (José Arthur Gianotti não veio, por problemas de saúde). Medição de Maria Cecília Loschiavo dos Santos, organizadora do livro.

Bem, não vou resumir falas ou debates, mas falar apenas do clima ambiente. O Salão Nobre, onde foram feitos, lotou. Acompanhamos as palestras por um telão, montado em outra sala, no primeiro andar. Depois, como a sala principal esvaziasse, pudemos subir e acompanhar as discussões ao vivo.

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Bom, imagino que para nós todos, que de uma maneira ou outra participamos da experiência da Rua Maria Antonia, a data seria lembrada de qualquer maneira. Mas existe também o momento histórico que vivemos, a tragédia de mais uma vez, e agora de maneira eleitoral, o Brasil flertar com o autoritarismo, para não dizer com o fascismo.

Este perigo, essa curiosa e trágica (ou farsesca) repetição da História, não passou despercebida nas falas dos professores. Mas, bem à maneira uspiana, sem estabelecer ligações diretas ou mecânicas entre um período e outro. Há que guardar diferenças e atentar para nuances. Filosofia não é para apressadinhos.  

Cabe lembrar que a Batalha da Maria Antonia não foi uma mera briga entre faculdades rivais. Foi luta política entre a USP, majoritariamente de esquerda e contra a ditadura, e estudantes de direita do Mackenzie, entre os quais havia integrantes do grupo fascista CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e membros da polícia e dos órgãos de segurança. Vivíamos a ditadura militar, as tensões acentuavam-se e, na época, não sabíamos que tudo aquilo iria desembocar no AI-5, Ato Institucional nº 5, que fechou de vez a ditadura, e aboliu todos os direitos políticos e individuais. Foi decretado dois meses depois, dia 13 de dezembro de 1968, atirou o país nas trevas e vigorou por dez anos.

Cabe, à esta altura do campeonato, não ser maniqueísta. Nem todos os alunos do Mackenzie eram de direita ou pertenciam ao CCC. Havia muitos mackenzistas de esquerda e contrários à ditadura, e estes, como lembrou o professor Franklin, “sofriam até mais que nós”, pois viviam na boca do lobo e eram os primeiros a apanhar quando os conflitos estouravam.

Para mim, é sempre uma emoção entrar naquele velho prédio, que hoje abriga o Centro Cultural Maria Antonia. Em minha época de estudante secundarista, aluno do Colégio Estadual de São Paulo e já bastante politizado, ia muito à Faculdade de Filosofia. Lembro que, em greve, e para não desmobilizar professores e estudantes, faziam-se lá cursos livres, que às vezes eram até mais estimulantes que os cursos regulares.

Respirava-se uma energia vital como nunca mais experimentei em minha vida. Havia uma sensação indefinida de que estávamos fazendo história e mudando o mundo. Ilusão? Sim, com certeza. Embriaguez revolucionária? Sim, por certo. Mas, e daí? Quem viveu aquilo, aquela delícia, viveu. E não se esquece jamais.

  Em 1968, eu não imaginaria que seria aluno de alguns daqueles professores que admirava na época. Cheguei à Filosofia como aluno regular apenas dez anos depois, e por vias transversas. Havia me formado em Psicologia e fazia pós-graduação quando algumas falhas de formação se faziam sentir no momento de pesquisar e escrever meu mestrado. Uma amiga sugeriu a Filosofia. E lá fui eu fazer vestibular de novo e entrar na Filo-USP em 1978.

Tive então o privilégio de ser aluno de Marilena Chauí, José Arthur Gianotti, Renato Janine Ribeiro, Franklin Leopoldo e Silva, Gérard Lebrun, Olgária Matos e vários outros. (Um dia quero fazer um inventário completo dos meu mestres em Filosofia, uma espécie de inventário de dívidas intelectuais).

De modo que foi particularmente emocionante, para mim, ver e ouvir na mesa de debates dois dos meus antigos mestres, Franklin e Marilena Chauí. No meu tempo de faculdade, Franklin ensinava Kant com sua voz baixa e seu rigor. Exigia de nós uma concentração sobre-humana para não nos perdermos naquele emaranhado de raciocínio abstrato. Com Marilena fiz o curso de Introdução à Filosofia e, anos depois, de Filosofia Moderna, se não me engano.

A ela devo muito, mais que aos outros, e explico o por quê. Estava enredado na redação da minha dissertação de mestrado (sobre o conceito de interpretação em Freud e Lacan) e não conseguia avançar. Meu orientador não tinha lá muito tempo para mim. Eu fazia o curso de Filosofia Moderna com a Marilena e, naquele ano, ela pediu que, à guisa de avaliação, desenvolvêssemos, ao longo do curso, uma pesquisa sobre algum tema a ser apresentado no final do semestre. Perguntei a ela se poderia ser o meu tema de dissertação em psicanálise. Ela concordou e, dessa forma, ganhei uma orientadora extra-oficial, de imensa valia na conclusão do meu mestrado.

Autobiografia à parte, me tocou muito ver Marilena em pleníssima forma, cheia de alegria e entusiasmo. Confesso que esperava clima mais depressivo na Maria Antonia, devido às últimas pesquisas eleitorais e ameaças fascistas que nos rondam. Mas não. A fala de Marilena foi de uma energia única. Lembrou que depois da Batalha de 1968, a Filosofia foi desalojada da Maria Antonia, no centro da cidade, e abrigada na então periférica Cidade Universitária, no Butantã. “Para nós, era o pasto”, diz ela, recordando a relação orgânica que a antiga faculdade mantinha com a cidade, com seus bares, cafés, teatros, jornais. Era algo vital, que foi cortado com esse desterro.

No entanto, no “pasto”, a faculdade se fez e se reinventou. Como diz a Marilena, “eles nunca nos vencem”. Nós sempre renascemos – para perder de novo, “porque não fizemos a Revolução”.

O final de sua fala foi uma profissão de fé na inteligência, no conhecimento, e na alegria. E um ataque à ignorância, porque a ignorância é o mal, e o mal traz a violência.

O desfecho foi genial:

“Nossa missão é trazer o bem; e olha que não somos evangélicos!”

Inteligência, coragem, ironia. Grande Marilena Chauí!

O encontro me fez um tremendo bem. Não estamos mortos. Jamais estaremos.