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Sequestro de um Herói

Luiz Zanin Oricchio

24 de março de 2011 | 12h13

Sequestro de um Herói, do belga Lucas Belvaux, poderia ser apresentado de maneira simplória como um excelente filme de gênero policial. Mas isso não lhe faria jus. Na verdade, Belvaux vai muito além do que se espera desse gênero. Além disso, quebra clichês acumulados por várias camadas geológicas de incursões do cinema norte-americano nessa seara.

Quem o lança no Brasil prefere esse título prolixo ao invés da sintética denominação original, mais fiel ao estilo seco da obra – Rapt. Rapto, sequestro, que é o que acontece com o ricaço Stanislas Graff (Yvan Attal), personagem com o qual o público dificilmente poderá se identificar. Stanislas é egocêntrico e mau-caráter. Mas se tornará alvo de uma ação violenta por parte de um grupo bastante profissional e disposto a tudo. Tanto assim que seus sequestradores não hesitarão em fornecer à família e sócios do sequestrado uma macabra prova de vida – para mostrar que a vítima está mesmo em seu poder e, adicionalmente, para demonstrar que não estão para brincadeiras.

Belvaux já teve exibida por aqui a sua trilogia composta dos filmes Em Fuga, Um Casal Admirável e Acordo Quebrado. Quem os viu, lembra do seu método de trabalho. Filmagem tensa, dura, indo além do tratamento convencional associado a esse gênero em seu formato mais convencional. São filmes para público mais amplo e não para guetos de cinéfilos. Mas esse público é tratado por Belvaux de maneira adulta. Ou seja, ele supõe uma plateia que pode ser exposta a alguns aspectos mais duros da vida sem precisar de uma terapia de apoio após a sessão.

Um deles desses aspectos é que, em certos casos dessa nossa vida incerta, às vezes não existem heróis unidimensionais. Pelo menos, fica muito difícil considerar Stanislas um deles, a não ser que seja como um herói de si mesmo. Autoritário, manipulador, cheio de vícios e baixezas, no entanto desperta simpatia quando luta pela vida. E essa luta se dá contra um sequestrador, o chefe, de aparência tão suave e civilizada enquanto, no fundo, é implacável.

O melhor da história virá mesmo no pós-sequestro, quando Belvaux desfaz aquelas ilusões simplórias sobre a “a experiência que torna as pessoas melhores, etc”. Bem, essa melhoria trazida pelo contato com a própria fragilidade pode acontecer de fato, mas não é inevitável que ocorra. Podemos muito bem piorar com experiências terminais, por que não? De qualquer forma, será surpreendente – em especial para o espectador habituado aos clichês do gênero – observar em que direção a história de Stanislas se encaminhará.

Sem ser uma obra-prima, Sequestro de um Herói nos proporciona aquela sensação de agradecimento que devemos ao cinema comercial nas raras vezes em que consegue nos surpreender.

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