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40 anos de uma Odisséia no Espaço

Luiz Zanin Oricchio

09 de maio de 2008 | 13h44

Vi que até a Nasa resolveu homenagear os 40 anos de 2001 – uma Odisséia no Espaço, que Kubrick adaptou de Arthur C. Clarke. Revi o filme outro dia. Está inteiraço. E toda aquela seqüência com o Danúbio Azul diz tudo sobre a beleza tecnológica. Mas em seguida, e até o fim, vem o avesso dessa utopia do conhecimento, com o computador que enlouquece e se volta contra seus amos.

Rios de tinta já foram usados para discutir as implicações filosóficas de 2001. Mas é claro que se trata de uma especulação sobre as origens e também sobre o destino humano. Quer dizer – é um filme metafísico, um dos poucos exemplares desse gênero. Voltaremos sempre a ele, enquanto o cinema for o cinema, e o utilizarmos para expandir nossa consciência e sensibilidade.

Para aproveitar, revi o também magnífico Solaris, de Tarkovski, a “resposta” soviética a 2001, lançada em 1972. Novamente o cosmos, mas dessa vez para especular sobre as nossas projeções e desejos mais íntimos. Se o Oceano de Solaris mostra-se capaz de trazer de volta a mulher amada que estava morta, é porque o desejo humano, este não morre jamais. Freud dizia que não há morte nem tempo no inconsciente. Enfim, especulações. E não vivemos sem elas.

Esse par de filmes extraordinários – 2001 e Solaris – é de um tempo em que o público não tinha medo de ir ao cinema para enfrentar enigmas. Pelo contrário: sentia-se desafiado por eles. E lucrava com o desafio.

Abaixo, um velho texto que escrevi sobre 2001. A quem interessar.

2001provocou uma série infindável de interpretações, mesmo porque é ambíguo em
muitas de suas seqüências e principalmente na final. Continua intrigando até
hoje, o que é prova de sua atualidade. Por exemplo, não à toa, suas primeiras
cenas são ilustradas por Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss. A
referência liga a música ao livro homônimo de Nietzsche e, talvez, a um dos
seus aforismos: “O homem é uma corda atada sobre um abismo, um hiato entre dois
nadas. ”
O filme defende a tese da interferência extraterrestre no nascimento da
inteligência humana, o que tem sido apontado como ponto fraco. Mas é uma opção
de narrativa. Daí aquele famoso monólito negro, cujo significado exato se
desconhece até o final. Ele está presente quando o osso vira arma na mão de um
macaco. Ou seja, quando parte da natureza é apropriada e torna-se ferramenta,
prologamento e extensão do corpo. Essa possibilidade de ultrapassar os limites
físicos pela mente é expressa por Kubrick numa das mais elegantes elipses da
história do cinema. O osso que gira no ar liga-se à nave espacial que desliza
no espaço. Do primitivo ao civilizado; do passado ao futuro; da origem ao
destino – tudo isso está contido na articulação entre os dois planos
narrativos.
Do futuro, que é quando se situa o principal da ação, Kubrick nos dá uma visão
a princípio rósea. A nave bóia no espaço, leve, livre e solta. O som, agora,
vem do Danúbio Azul, também de Strauss. Vê-se o interior do aparelho. As
pessoas também flutuam, livres das amarras da força gravitacional. Uma cena
ficou célebre: o astronauta, adormecido, perde sua caneta, que passa a boiar
pela cabine. O futuro aparece assim: limpo, confortável, quase livre das
contingências humanas.
Fosse esse tom naif o dominante no filme e ele já estaria esquecido. No
entanto, o roteiro, escrito em parceria por Kubrick e Arthur C. Clarke, prevê
muita areia entrando nessa engrenagem tão azeitada. A história, em princípio
simples, é a seguinte: uma expedição espacial é enviada a Júpiter, de onde
chegam estranhos sinais de rádio. A incumbência seria detectar a fonte desses
sinais, que estariam relacionados com a origem da espécie humana.
Vocação metafísica – Há, no meio da aventura, uma intervenção extra- humana, ou
quase. O controle da nave está entregue a Hal, o supercomputador, responsável
pela segurança dos tripulantes, que joga xadrez com eles nas horas vagas.
Hal-9000 é um precursor disso que se chama inteligência artificial e ganha
atualidade com a derrota de Gary Kasparov para o Deeper Blue, programa para
jogar xadrez criado por técnicos da IBM. O naufrágio do campeão russo diante da
máquina foi reportagem de capa da revista Le Nouvel Observateur da semana
passada. Tema central: o software da IBM, que humilhou Kasparov e a humanidade,
é realmente inteligente? “Pensa” ou não passa de uma gigantesca calculadora,
capaz de examinar alguns milhões de jogadas por segundo?
A indagação está no centro de 2001. A inteligência, esse valor supremo que
define o homem enquanto tal (autodenominado homo sapiens, lembre-se), teria
vindo de algo ou alguém exterior a ele? E poderia ser reproduzida
artificialmente por ele, na figura de um supercomputador, capaz não só de
pensar como de sentir? Hal tem inteligência e emoção. Quer poder, assumir o
controle da missão, mesmo que tenha de destruir seus senhores. Sente medo
quando é desligado pelo astronauta. É uma versão sofisticada da revolta da
criatura contra o criador, já expressa em Frankenstein, de Mary Shelley.
Esse miolo de filme, Hal contra os astronautas, é o mais empolgante. Mas, mais
uma vez: 2001provavelmente não teria entrado para a história não fosse sua
seqüência final. Nela, quando o herói trágico, vivido por Keir Dullea, se
confronta com o próprio destino, como espécie, o filme assume a sua grandeza e
enfeixa todas as pontas deixadas pendentes ao longo da ação. E o próprio fato
de tentar responder a tudo (de onde viemos, quem somos, para onde vamos), ainda
que de forma ambivalente, confere a 2001o título isolado de science fiction de
vocação metafísica. O desejo de tentar desfazer essa eterna disjunção da
ciência com a metafísica já faz dele uma obra-prima. No fundo, é um filme
religioso, muito mais que Os Dez Mandamentosou O Manto Sagrado.

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