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4 x Glauber

Luiz Zanin Oricchio

22 de junho de 2008 | 23h40

Seria um lugar-comum falar em “reavaliação” da obra de Glauber Rocha – a não ser que se ache que comediantes têm alguma coisa de importante a dizer sobre o cinema e suas opiniões afetem um reconhecimento já universal.

Mesmo sem necessidade de ser reavaliada, essa obra, que já se tornou de certa forma “clássica”, pelo menos no entender da parte que conta da crítica e do ensaísmo cinematográfico internacional, continua a padecer de um déficit de circulação. Por isso é muito boa a iniciativa de lançar um pacote inteiro de filmes e respectivas fortunas críticas. A caixa Coleção Glauber Rocha (Versátil, 4 discos duplos, R$ 170) contém um longa anteriormente lançado, Terra em Transe, e mais Barravento, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e A Idade da Terra, seu último trabalho antes da morte prematura em 1981.

Os filmes retornam ao público em cópias impecáveis. Restauradas a partir de negativos, ou de outras cópias, foram digitalizadas e são apresentadas segundo concepção visual e sonora originais. O processo de restauro enfrentou dificuldades diferentes em cada caso. Barravento, primeiro longa de Glauber, foi tirado a partir de um negativo, ainda que este tivesse problemas de má conservação. Mas dispor do negativo já é um trunfo, um mamão-com-açúcar para um restaurador. Já a digitalização de O Dragão da Maldade precisou ser feita a partir de uma cópia francesa, dublada e legendada na parte das canções. A banda sonora foi extraída de uma cópia depositada em Cuba e partes irreparáveis foram supridas por outras cópias e até pelo material que circula pela internet. Enfim, a restauração de um filme nesse estado se assemelha muito a um trabalho arqueológico. O restauro que nos devolve a obra de Glauber foi feito pelo Tempo Glauber, sob direção de Paloma Rocha e Joel Pizzini, pela Cinemateca Brasileira e teve patrocínio da Petrobrás. Cada um desses filmes é comentado, nos extras, pelo próprio diretor, em material de arquivo, e também por analistas como Ismail Xavier, João Luiz Vieira, Robert Stam e outros.

Percebe-se um percurso evolutivo expresso nesta caixa de DVDs. No primeiro filme, Barravento (1961) temos uma linguagem cinematográfica ainda aproximada do cinema narrativo. Filmado na praia de Buraquinho, próxima a Salvador, mostra uma comunidade de pescadores explorada pelo dono da rede de pesca. Firmino (Antonio Pitanga), que estivera na cidade grande e retorna à vila, é o elemento de desestabilização, pois é quem se dá conta da exploração econômica. Em imagens tomadas em preto-e-branco contrastado, o filme exibe aquela leveza e liberdade de linguagem que iria ser aprofundada, e bastante, já nos trabalhos posteriores do Cinema Novo.

O grande salto se dá com Terra em Transe (1967), resposta cinematográfica ao golpe de 1964 e filme no qual Glauber leva seu estilo talvez ao grau maior de ousadia e perfeição. Em chave alegórica, os grandes problemas históricos do País são repensados. Desfilam pelos personagens de Jardel Filho, Paulo Gracindo, José Lewgoy e Paulo Autran as figuras ideais do intelectual, do político populista, do ditador, do capitalista, do povo. Uma reflexão, desencontrada e dilacerada, feita a partir de imagens, de som e de fúria.

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968) é o primeiro trabalho de Glauber com a cor. Busca, no registro do diretor de fotografia Affonso Beato, uma “cor tropicalista”, como buscara o registro do sol causticante no preto-e-branco dos filmes anteriores. Trata do retorno de um personagem surgido anteriormente, em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), o matador de cangaceiros Antonio das Mortes (Maurício do Vale). Neste, Antonio será contratado por um latifundiário para se livrar de Coirana, que dizem ser reencarnação de Lampião. Mas as condições históricas são diversas do filme anterior. Num sertão hipercolorido, misto de atraso e modernidade (há caminhões, postos de gasolina, em meio à desolação do deserto), Antonio pode muito bem refazer as suas opções políticas – se é que as tem. São as idéias de Glauber se tornando progressivamente complexas – e se expressando em imagens que refletem suas contradições, e as do País.

Essa complexidade atinge o ponto máximo, ponto de ruptura com a linguagem em A Idade da Terra (1980), seu último filme, que concorreu e foi muito mal recebido no Festival de Veneza do mesmo ano. A obra segue ao arrepio de qualquer convenção narrativa, por ousada que seja. Na verdade, ela dissolve a narrativa, embora não abdique do sentido. Pelo contrário, o potencializa, numa forma significante partida em mil estilhaços, que fala de todas as rupturas do País, de sua potencialidade como nação e de sua miséria, de uma maneira como nunca antes havia sido feita. Esse filme complexo, que não deixa jamais de nos surpreender, é acompanhado por um extra muito especial – um documentário sobre seu processo de criação dirigido pelo cineasta Joel Pizzini e pela filha de Glauber, Paloma Rocha.

(Caderno Cultura, 22/6/08)

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