327 Cadernos e O Compadre de Picasso
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327 Cadernos e O Compadre de Picasso

Luiz Zanin Oricchio

10 de abril de 2016 | 12h22

Piglia manuseando página dos diários

Piglia manuseando página dos diários

 

Como sobreviver ao embrutecimento causado pela crise policial-jurídico-econômica-política? Uma alternativa é abastecer-se de inteligência e sensibilidade. Boas leituras, boa música, bom cinema. Nesse sentido, recomendo com ênfase dois filmes do É Tudo Verdade: Cícero Dias – o Compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho (Cinearte 1, 13h) e 327 Cadernos, de Andrés Di Tella (Reserva Cultural, 16h). 

Quando era criança, Ricardo Piglia mudou-se com a família de Buenos Aires para Mar del Plata. O pai, peronista, sentia-se ameaçado na capital e buscou os ares do balneário à beira-mar. O garoto Ricardo deu início a um hábito que o acompanhou ao longo da vida: a escrita de um diário, que hoje soma 327 cadernos, o título do filme. De volta de Princeton, Piglia, agora autor consagrado, busca o que fazer com esse oceano de anotações, iniciado na infância. O cineasta o acompanha no trajeto memorialístico que é o do escritor que tenta, pela palavra escrita, dar certa ordem ao caos em que vive e e vivemos todos.

Trabalhando com imagens domésticas e material de arquivo, a leitura do diário acompanha 50 anos da vida de Piglia, mas também da Argentina, com a ascensão e queda do peronismo, a ditadura militar, a luta armada, a redemocratização. Vida pessoal e vida política entrelaçam-se, como acontece de modo natural com qualquer pessoa.

Um trecho dos diários vale ser destacado. É quando Piglia recorda de uma jovem guerrilheira, muito procurada pelos militares, que se escondeu em sua casa. A jovem e a mulher do escritor ficaram amigas durante os três dias em que a situação durou. Logo foi levada por outros militantes e morreu em combate dias depois. A mulher de Piglia descobriu que a guerrilheira havia esquecido um pequeno lenço no quarto em que se escondia. Conservou-o, durante anos, como uma espécie de bandeira, a recordar aquele tempo, a luta, a morte precoce, a resistência. A passagem é poesia poderosa e bela, escrita num tempo mau. Uma epifania.

Do alto dos seus bem vividos 81 anos, Vladimir Carvalho assume-se como mestre e filma como menino. O exemplo é este belo e só em aparência simples Cícero Dias – o Compadre de Picasso, que tem como personagem o artista plástico pernambucano. Cícero Dias (1907-2003) nasceu em família rica, da aristocracia rural, e passou boa parte da vida na Europa. Está enterrado em Paris, no Cemitério de Montparnasse e é lá que o filme começa. Há uma obra de Dias em seu túmulo e também a inscrição, em português: “Eu vi o mundo…e ele começava por Recife”. Os pernambucanos costumam dizer que o Capibaribe e o Beberibe se juntam para formar o Oceano Atlântico. Cícero saiu para o mundo, mas, ao que parece, nunca deixou o Recife.

Pelo que vemos da reconstituição de sua obra, em diferentes fases, ele parte de uma fase muito ligada à terra e à sua experiência de “menino de engenho”, como diria José Lins do Rego. Um período de exuberância e sensualidade, registrado em aquarela. Depois, já na Europa, o contato com as vanguardas e o diálogo com o surrealismo. Por fim, o caminho da abstração, que causa polêmica quando volta ao Recife para uma exposição. Dias é execrado por críticos conservadores, mas é também uma libertação para os jovens artistas de sua terra. 

Há algo de incrível nesta vida de artista, na qual a brasilidade jamais se esvai, ainda que tenha optado pelo exílio voluntário. Cícero Dias nunca deixa o Recife, mesmo tendo se estabelecido em Paris, casado com uma mulher francesa, tornado-se amigo de Paul Éluard e Pablo Picasso (que batizou sua filha, Sylvia). Atravessou amores, fases artísticas e estilos diversos, e sempre o Brasil esteve lá. O Recife e sua querida casa de Jundiá, que ele reencontrou em ruínas, em uma de suas visitas. Mas a casa, em sua imaginação, era como o quarto de Manuel Bandeira, que emergia intacto em sua mente, embora não tivesse mais existência no mundo real.

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