20 anos sem Alberto Moravia
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20 anos sem Alberto Moravia

Luiz Zanin Oricchio

30 Março 2010 | 19h23

moravia

Nos 20 anos de sua morte, que se completam dia 26 de setembro, Alberto Moravia tem sido lembrado como uma das mais completas e complexas figuras literárias do século passado. Ficcionista acima de tudo, sem dúvida, mas também intelectual participante, testemunha da luta antifascista em seu país e homem que praticou o diálogo permanente entre a literatura e o cinema.

Quem foi Moravia, nascido Alberto Pincherle, em 28 de novembro de 1907, em Roma? É o que pretende responder seu tradutor e biógrafo, René de Ceccatty em Alberto Moravia (Flammarion, 696 págs., 25 euros), biografia que acaba de ser lançada na França. Tarefa meio inglória, pois o próprio personagem não acreditava nas virtudes absolutas da memória e sorria irônico quando lhe diziam que sua vida daria um romance. Que nada. Para fornecer material aos romances, ele acreditava mais na capacidade de invenção que nos poderes da rememoração proustiana. Essa atitude talvez se deva ao sucesso precoce, pois o rapaz doente (sofria de tuberculose óssea) se torna famoso aos 22 anos com seu livro de estreia, Os Indiferentes.

Vivendo durante o fascismo, Moravia, judeu por parte de pai, só tomou conhecimento do regime quando Mussolini, em pessoa, condenou Os Indiferentes por ser “burguês e antiburguês ao mesmo tempo”. Em 1938, Moravia escreve um carta ao Duce,  pedindo que não fosse considerado judeu. Adota o sobrenome de sua avó materna e atravessa o período da guerra assumindo uma atitude de resistência que ele mesmo qualifica de “passiva”. Sim, Moravia pode não ter sido um resistente clássico, com fuzil nas mãos, mas jamais escreveu qualquer linha de apoio ao fascismo, ao contrário do que fizeram Curzio Malaparte e Giovanni Papini, entre outros. Mas percebeu, como ninguém, o poder de um regime totalitário em arrastar na voragem homens de personalidade frágil como o anti-herói de O Conformista, talvez seu romance mais completo, publicado em 1951.

Nele, Moravia funde uma circunstância histórica à determinação de tipo psicanalítica. Quer dizer, trabalha de maneira multicausal, em busca de respostas a essa pergunta: o que leva um homem a trair seu país, seus amigos e a si mesmo em determinados momentos da história? O que, na verdade, dá forma à motivação profunda de um ser humano? É também, em outro contexto, a pergunta que orienta outro dos seus romances mais conhecidos – O Desprezo. Por que razão a personagem Emilia passa a desprezar o marido depois de assediada por um terceiro? Mistérios da alma humana, feminina em particular, esta a obsessão central de Moravia, que se casou três vezes: com Elsa Morante, Dacia Maraini e Carmen Llera – esta era uma jovem de 27 anos quando Moravia a conheceu, aos 73.

Amores, política, história, uma longa vida – e sim, um testemunho privilegiado do século, recebendo as influências comuns do período, de Marx a Freud. Sim, o “antifascista passivo” também foi comunista. Mas assim como não podia tolerar a ideologia do fascio, também rompeu com o Partido assim que os burocratas começaram a dar palpites em seara onde não permitia intromissões – a da criação literária. Mesmo fora do PCI, Moravia manteria suas convicções socialistas e, sobretudo, antiburguesas – atitude que atravessa sua obra de um ponto a outro. Mas se pensava politicamente, sua casa inexpugnável era mesmo a literatura e, nela, as influências maiores foram de Dostoievsky e Stendhal, de quem admirava a fluência e o corte “quase cinematográfico” das cenas. O Moravia cinéfilo sentia-se, por esse lado, particularmente próximo do autor de Cartuxa de Parma e de O Vermelho e o Negro, que morreu em 1842 sem ter visto nem de longe a invenção dos irmãos Lumière, surgida apenas em 1895.

Moravia e o cinema – este seria um capítulo inteiro de sua trajetória. Primeiro, porque algumas de suas mais importantes obras foram adaptadas para a tela (La Ciociara, por De Sica, com Sophia Loren, O Desprezo, por Godard, com Brigitte Bardot, O Conformista, por Bertolucci, com Jean-Louis Trintignant). Ao todo mais de 20 adaptações cinematográficas, a mais recente, O Tédio, dirigida pelo francês Cédric Khan. Mas, além disso, Moravia praticou de maneira constante a crítica cinematográfica, mantendo por três décadas uma coluna na revista semanal L’Espresso. Foram cerca de 2 mil críticas. Uma seleção desses textos foi reunida sob o título de Al Cinema, volume publicado na Itália em 1975 e organizado por Elena Andreas. Existe uma versão francesa – 30 Ans au Cinema – de Rossellini a Greenaway (Flammarion, 1990) traduzida do italiano por René de Ceccatty, ele mesmo, o autor da biografia de Moravia acima comentada. O volume tem um prefaciador ilustre, ninguém menos que Federico Fellini. Os dois foram íntimos por muitos anos e consta-se que a amizade sobreviveu até mesmo à disputa amorosa por uma jovem atriz, quando Moravia já avançava rumo aos 80 anos.

A biografia de René de Ceccatty tem recebido boas resenhas na Europa e, ao que parece, supera em informações a Vida de Moravia, depoimento do escritor a Alain Elkann (Rocco, 1992). Mas consegue desvendar o fenômeno Moravia? Nada mais incerto, ainda mais quando se trata de um humano complexo e paradoxal como ele foi. Sobre esse tema, o próprio Moravia tem uma história das mais interessantes a contar. Em O Canto de uma Mulher (em Contos Dispersos – 1928-1951, Bertrand do Brasil), o narrador diz que se incumbiu de escrever a biografia de um famoso político recém-falecido. Havia dedicado um ano inteiro à pesquisa e considerava-se apto a começar o relato do homem famoso, “uma vida aventurosa que se prestava a ser contada de forma quase novelesca”. S. (é assim que ele se refere ao personagem) fora um homem público, um daqueles dedicados integralmente à sua missão. Em aparência, não tivera vida pessoal, não fora casado, nem se conheciam casos amorosos em que estivesse envolvido.

Assim, seu futuro biógrafo concentrou-se no aspecto público dessa vida. Antes de começar a escrever, deu-lhe vontade de conhecer a casa de campo onde S. passara seus últimos anos. E, lá estando, perguntou à governanta que o acompanhara até o fim como era o seu cotidiano. No que ocupava o tempo? Lia? Escrevia?  “Não, ele apenas dormia e cuidava da jardinagem”, respondeu. A criada apontou para umas flores: “O senhor vê aquelas ali? Foi ele quem as plantou”.

O mundo do futuro biógrafo caiu. O que sabia ele do homem que deveria biografar, senão sua capa externa, sua vida pública, sua máscara social? O que conhecia da intimidade daquele político hábil que (isso agora ele sabia) amava as flores? Talvez o fato mais importante da vida daquele homem não tenha sido levar seu país à guerra, mas o suave canto de uma mulher à sua janela, quem sabe? Dando-se conta de sua ignorância irremediável, o escritor queimou todo o material acumulado até então e comunicou à editora que não iria escrever a biografia.

A vida de um homem é mistério. Cabe talvez à literatura (à arte em geral) não desvendá-lo (porque é impossível), mas adensar o enigma que existe em cada um de nós.