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1958-2008: cadê a magia da seleção?

Luiz Zanin Oricchio

17 de junho de 2008 | 15h22

Quis o destino que o Brasil perdesse do Paraguai no dia exato em que se comemoraram os 50 anos da vitória da seleção sobre a União Soviética na Copa de 1958. Não, não estou querendo comparar Gilmar, De Sordi, Bellini, Nilton Santos, Orlando, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo a Júlio César, Maicon, Lúcio, Juan, Gilberto, Mineiro, Josué, Gilberto Silva, Diego, Robinho e Luís Fabiano. Nem jogar Feola contra Dunga. Nem dizer, de maneira intoleravelmente nostálgica, que futebol mesmo era o daquele tempo, etc. Nada disso. Estou só assinalando a coincidência das datas.

Naquele 15 de junho de 1958, o mundo era apresentado à arte de Pelé e Garrincha, que entravam no time para não mais sair – nenhum dos dois havia participado das duas primeiras partidas, os 3 a 0 contra a Áustria e o empate sem gols contra a Inglaterra. Foram escalados para enfrentar os temíveis russos e seu “futebol científico”. Dizem os cronistas da época que os três primeiros minutos do jogo ficaram conhecidos como os mais espetaculares da história do futebol. Pelé, Garrincha, Didi e mais o restante do escrete deitaram e rolaram. Demoliram o “futebol tecnológico” com lances desconcertantes. Começava, naquele jogo mítico, a época de ouro do futebol-arte brasileiro que iria, digamos, até 1982, quando se eclipsa no Estádio de Sarriá sob os pés de Paolo Rossi. Talvez tenha durado um pouco mais, o que é matéria para discussão.

Já no dia 15 de junho de 2008, cinqüenta anos depois, a seleção brasileira coloca três volantes para enfrentar os paraguaios, que nos ameaçavam com seus três temíveis atacantes. Mas toda a parafernália defensiva armada por Dunga mostrou-se incapaz de resistir a Cabañas e companheiros. E assim, nesse domingo friorento, assistimos ao Brasil perder por 0 a 2, ele que havia vencido por 2 a 0 cinqüenta anos atrás. Simetria perfeita. Ou uma ironia da história, se preferirem.

O fato é que a seleção e a torcida brasileira viveram um grande e longo caso de amor durante o seu período dourado. Uma paixão que, como quase todas, um dia acabou por esfriar. Se dos 50 aos 80 uma vitória da seleção levava ao paraíso, e uma derrota conduzia diretamente ao inferno, hoje, um vexame como a derrota diante do Paraguai pode ser encarado como coisa normal, previsível, até banal e rotineira. Estranho, não?

Muito já se discutiu sobre o esfriamento desse caso de amor. Para ficar no caso recente: seria efeito do técnico medíocre? Jogadores, que não parecem ligar muito para a camisa que vestem? Derrotas diante de antigos fregueses? Um estilo de jogo que não empolga? Penso que uma dessas razões não anula a outra. Antes, se completam. Acho que um técnico obtuso, somado a jogadores indiferentes e fiascos como o da Copa de 2006, de fato produzem esse efeito de estranhamento. Também não ajuda o fato de a seleção jogar mais no exterior do que no Brasil.

Mas se a seleção jogasse num estilo que nos falasse mais de perto, talvez toda essa distância física não fosse tão sentida. Infelizmente, o que vemos é um time desconjuntado e alheio às melhores características do futebol brasileiro: a alegria, a invenção, o prazer do jogo. O lúdico aliado à eficácia. Para matar as saudades, ou redescobrir a matriz do futebol-arte, recomendo o filme de José Carlos Asbeg 1958: o Ano em que o Mundo Descobriu o Brasil. Serve como antídoto. Ou consolo.

(Coluna Boleiros, 17/6/08)

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