A safadeza cult de Carlos Zéfiro
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A safadeza cult de Carlos Zéfiro

Luiz Zanin Oricchio

01 de outubro de 2021 | 12h44

 

Passa dia 12 no Recine o novo filme de Sílvio Tendler Em Busca de Carlos Zéfiro, em sua versão integral. Outra versão, mais pudica, já foi exibida no Canal Curta! A não expurgada começa com um breve depoimento do cineasta, proclamando-se um libertário e lembrando, de maneira muito acertada, que o fascismo que ronda nosso país é inimigo da liberdade, do pensamento e do erotismo. É uma doutrina da morte e não do amor. 

O filme então debruça-se sobre a história de Carlos Zéfiro, nome familiar de quem foi adolescente nos anos 1950 e 1960. Era a assinatura dos famosos “catecismos”, como se dizia em São Paulo, e “revistinhas”, como atendiam os livretos nos pontos de distribuição no Rio. Em tempos em que não se falava em sexo em casa de família, foram nossos manuais (êpa!) de educação sexual.

O filme mostra, abundantemente, o conhecidíssimo traço (um tanto tosco) de Zéfiro. Tendler expõe a obra, dos enredos simples às preliminares e aos finalmentes entre os casais. Nada esconde desses  desenhos simples porém bastante funcionais, que atendiam ao que o público deles pedia. 

E quem era esse público? Masculino, claro e, ao que parece, de todas as classes sociais. Zéfiro era democrático. Mas há uma surpresa no filme, com várias mulheres se declarando leitoras ávidas de Zéfiro em sua juventude. Entre elas, a jornalista Tânia Fusco, a historiadora Simone Rodrigues e a psicanalista Glória Georgina Seddon.

Entre os homens, há os depoimentos de Juca Kfouri, do historiador José Carlos Bom Meihy, e do antropólogo Roberto Damatta, entre outros, além dos membros da própria família de Alcides Caminha, como sua viúva e seu filho. Sabe-se, por eles, que Caminha colocava no papel sua fértil imaginação erótica em qualquer lugar da casa. Até mandar construir uma edícula no fundo do quintal para ter alguma privacidade.  

Apesar de Zéfiro escrever e desenhar do ponto de vista masculino, as mulheres, de modo geral, admitem que não se deve julgá-lo pela régua do nosso tempo sem incorrer em anacronismo. Procedimento que tem valido censura um tanto infantil a outros autores do passado, como Monteiro Lobato. 

Em Zéfiro, o ponto de vista era masculino, sem dúvida. Mas em muitas histórias é a mulher quem narra. Como isso, Zéfiro punha no papel algo óbvio, mas um tanto perturbador em sua época, o reconhecimento do desejo feminino. Não raro eram elas que conduziam a ação e mostravam-se elogiosas ou ácidas em relação aos atributos masculinos ou ao seu desempenho. 

É verdade que Zéfiro há muito havia saído da clandestinidade. Sua identidade secreta, o funcionário Alcides Caminha, da cidade fluminense de Anchieta, foi revelada em 1999 em reportagem de Juca Kfouri na revista Playboy. Ganhou também uma biografia, O Deus da Sacanagem: a vida e o tempo de Carlos Zéfiro, de Gonçalo Júnior (biógrafo também do mestre do erotismo, o italiano Mino Manara). Mas o precursor dessa recuperação foi o recém-falecido cartunista Ota (Otacílio D’Assunção) com seu livro de 1984, O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro. 

Imagina-se que, ao longo de sua trajetória, Zéfiro tenha desenhado e lançado no mercado de 600 a 800 catecismos. Proibidos, eram vendidos de forma clandestina em bancas de jornais e outros pontos de distribuição. Os adolescentes sabiam onde encontrá-los. Quantos os leram? Impossível saber. Mesmo porque, as revistinhas eram passadas de mão em mão até se desgastarem pelo uso. Fato é que algumas gerações de brasileiros – e, pelo visto, de brasileiras – tiveram em Carlos Zéfiro seu primeiro cronista dos encantos da vida sexual. Não é pouca coisa.   

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